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23/09/13

Livro sobre as redes sociais. "Você acha que usa a internet, mas está sendo usado por ela".

Extractos da entrevista a Bernardo Carvalho, autor do livro sobre a internet "Reprodução" (Companhia das Letras).
"Tive um processo longo de percepção de uma fascistização do mundo, de um jeito ambíguo, porque as pessoas criam o fascismo achando que estão encontrando a liberdade. A internet é libertária, democrática, mas também faz você entregar sua privacidade e se relacionar com corporações como se fossem Deus ou a natureza. Elas dizem: "Você não precisa pagar nada". E você se entrega acriticamente, porque a ideia de não fazer esforço é sedutora. E há o narcisismo, a exposição no Facebook, que pega um ponto central. É perverso, a conquista vai em pontos frágeis da psique, você se sente uma celebridade. Do ponto de vista político, você acha que está usando, mas está sendo usado. O livro expressa esse desconforto.
[...]
A internet "talvez tenha acirrado algo que sempre existiu em potencial. Você não tem privacidade, mas pode ter anonimato, o que permite uma manifestação de imbecilidade sob a proteção do anonimato. Estava incomodado com isso e pensei nesse narrador que representa o ódio absoluto, o anonimato da internet. No livro há uma frase do [filósofo espanhol] Ortega y Gasset: "Todo povo cala uma coisa para poder dizer outra. Porque tudo seria indizível". O personagem tem a informação absoluta, mas nada do que ele diz quer dizer muito. Não adianta você saber um monte de coisas, ser informado na superficialidade midiática sem uma compreensão do mundo. Você só reproduz, não consegue mais produzir.
[...]
Notei um ódio no qual reconheci esse anônimo da internet [protagonista do livro]. O protagonista cita os "colunistas" da mídia, que, nota-se, alimentam o ódio dele. Pensou em alguém específico? Isso resume várias pessoas. É uma grosseria de pensamento, gente que fala como se falasse com crianças. O problema não é ser colunista de direita, é o tipo de argumento primário e fácil de ser derrubado. O negócio é no grito porque é insustentável. E isso produz best-sellers no Brasil. Há uma espécie de inconsequência política que está no discurso desse personagem. A burrice era privada, mas agora é pública.
[...] A literatura passou a ser pautada pelo gosto da média. Mas literatura é reflexão, não só produto de consumo, não só contar uma história. Tem um elemento de rebeldia, de criação. Não sei se incomoda, mas esse livro me deu prazer de fazer e me dá prazer de ler. Há uma coisa engraçada no discurso do ódio.
Não tenho clareza do que o livro representa, mas é algo político como nunca fiz, tem um humor que nunca tive. Sempre fui contra a literatura política, atrelada, mas desta vez tinha uma urgência. O livro não busca uma solução. É uma visão trágica das camadas de possibilidades".
 
Bernardo Carvalho

11/09/13

A propósito do "narcisismo" no facebook: notas avulsas sobre a "fase do espelho" referida pelo psicanalista Jacques Lacan



“O homem e a mulher são, do ponto de vista corporal, fetos de primata
 que atingiram [prematuramente] a maturidade sexual” (Bolk, 1960).
É necessário dizer claramente que, ao contrário do discurso dos psicólogos da normalidade, o "narcisismo" não é um desvio ou uma doença. É a característica essencial da sociedade ocidental em que vivemos. Um vírus que tende a aumentar exponencialmente com as redes digitais, com a aceleração do fascínio pelas imagens e, finalmente, com a alucinação "normalizada" que corre nas redes sociais, nos jogos e no sexo digital.
Para se perceber a noção de "narcisismo" referida em posts anteriores, irei recorrer ao psicanalista Jacques Lacan.
Antes, alguns comentários rizomáticos. Acerca do homem como um ser epifilogeneticamente alienado, um ser que tende a viver imenso tempo na "fase do espelho". Uma tendência hipervalorizada no Facebook. 


De acordo com o psicanalista Jacques Lacan, somos seres em angústia, todos potencialmente neuróticos, pela nossa ligação demasiado intensa e longa, mimética com a mãe enquanto bébés. Somos, na verdade, o animal que passa mais tempo nesse estado de total falta de autonomia depois de nascer. De algum modo, o homo sapiens é cientificamente um "nascido"  antes do tempo, um "aborto". Mais tarde, ficamos naturalmente marcados para toda a vida. Dependendo da nossa liberdade e da forma como somos "educados" ou "libertados", podemos seguir sendo egocêntricos num eu-espelho, num narcisismo que a sociedade de consumo incentiva todos os dias. Podemos todos os dias viver na euforia do espelho, numa traição ao eu-profundo (ver livro de Arno Gruen: A traição do eu). Esse narcisismo é o campo onde pode nascer a semente da crueldade psicopata. Ou então, se tivermos sorte, podemos "dar a volta", muitas vezes por caminhos pouco luminosos, encontrando pouco a pouco o nosso eu autêntico, um eu descentrado, pré-individual, como defende algures o filósofo Gilbert Simondon e o psicanalista Carl GustavJung. Mas isso é outra história...

Mas ao contrário, por exemplo de outros animais como o cão, com uma outra percepção visual [menos concentrada na "fovea", no centro da retina] e um uso mais amplo dos sentidos nomeadamente o olfacto, o homem tem um olhar dirigido, analítico, pouco holístico (ver o Manifesto Cyborgue da bióloga e pós-feminista Donna Haraway). O homem está centrado na percepção visual da fovea (necessária para o homem primitivo ter acuidade visual na caça) tendendo por isso, na sociedade actual, a ficar dependente do espelho e das percepções visuais "focadas". Por isso, a insistência doentia nas imagens, no sexo por imagens, na apresentação da nossa "face", na rostridade através, por exemplo, das fotos pessoais no "Facebook".

Este eu-ego, criado no mimetismo da infância na relação com a mãe, é uma "instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do Estádio do Espelho". Um 'Eu' criado pelo nosso Imaginário, "juntamente com fenómenos como o amor, o ódio, a agressividade" (ver "Jacques Lacan", In Wikipedia). São fases imaturas, de máscara mas que podem durar infelizmente toda a vida.

A sociedade do "trabalho-mercadoria" faz todo o possível para que assim seja. Infelizmente, para mal do planeta e das nossa vidas, a maioria dos que nos governam, principalmente os gestores das grandes corporações multinacionais, são no fundo crianças egocêntricas com tendência psicopatas (ver livro do conhecido psicólogo Arno Gruen, "A loucura da normalidade").

Vejamos então o texto de Léa Silveira Sales.

“O homem é, do ponto de vista corporal, um feto de primata que atingiu a maturidade sexual”. 

"

Segundo Lacan (1966, p. 96) há  “[...) Lacan confere o estatuto de “Discórdia primordial [do homem]”; o fato de nascer prematuro – com o mal-estar e a falta de coordenação motora que isso acarreta – não permite ao homem o estabelecimento de relações fisiológicas suficientes com o meio e é essa lacuna que a imagem possui a função de preencher [nomeadamente a importância do olhar da mãe que o apaixonado, um estado de 'pathos', retoma no olhar do amado ou amada]; é ela que passa a mediar a relação do homem com o mundo.


O estágio do espelho constitui, justamente, um dos modos dessa relação: “A função do estágio do espelho revela-se [...] como um caso particular da função da imago, que é estabelecer uma relação do organismo com sua realidade [...]” (Lacan, 1966, p. 96).

Lacan compara o recurso à imago no ser humano ao fenômeno da deiscência (abertura das sementes) na botânica; Bowie (1991, p. 29) esclarece a analogia: “[...] a auto-alienação do sujeito é tão ‘natural’, tão inevitável, quanto a auto-propagação das plantas.”
Segundo Ogilvie (1991), o homem é finalmente definido como um ser inacabado a partir de 1926 com os trabalhos de Bolk que apoiavam essa definição em dois fatores: a neotenia – grande demora no desenvolvimento com relação às outras espécies – e a 
fetalização – existência de traços anatômicos arcaicos: características que, nas outras espécies, pertencem apenas ao estágio fetal permanecem presentes no homem durante toda a sua vida; nas palavras de Bolk (1960 apud Ogilvie, 1991, p. 115): “O homem é, do ponto de vista corporal, um feto de primata que atingiu a maturidade sexual”. 

Para Lacan (1966, p. 186), é preciso, então, que a imagem venha suprir, no homem, as deficiências causadas pela neotenia e pela fetalização: 

“É em função desse atraso do desenvolvimento que a maturação precoce da percepção visual adquire seu valor de antecipação funcional”. 

Léa Silveira Sales, "Posição do estágio do espelho na teoria lacaniana do imaginário" 

29/08/13

Para una ecosofía de la mente. "Haz lo que quieras": el virus del narcisismo" espiritual" en las nuevas generaciones



"El idiota es él puro joven idiota. Finalmente, se vuelven cínicos, adquieren hábitos extraños, siempre en busca de lo que más le convenga y le atrae, a la búsqueda de técnicas para tener éxito y sentirse bien, tranquilo, buena salud y aspecto hermoso: el cristianismo, yoga, dieta macrobiótica, las drogas, parapsicología, el psicoanálisis, etc.".

Ernesto Sampaio in Ideias Lebres, Lisboa, Portugal, Fenda, 1999, págs 133 a 136. [Publicado en Diário de Lisboa, de 12/6/1987.]

Ernesto Sampaio, un periodista portugués ya fallecido, describe, en un texto profético escrito en los años 80, la nueva generación del empleo precario y de los sueños idealistas de sus padres. Muchos de ellos educados en la línea del narcisismo de los media - no son los antiguos revoltosos de los años 70 porque no los entienden, hasta miran la acción política como uno atraso de consciencia - estos "idiotas" puros sufren inmenso en su ambivalencia. Pero, poco a poco se vuelven cínicos, una máscara con una apariencia saludable y de la Nueva Era. Se sienten como se fueran los únicos en el planeta. Se sienten los "Masters" del universo. Imaginan que la sociedad les permite escoger libremente.

¿Y dónde está el daño en este narcisismo? Incluso no hay algo saludable y natural en tener una alta auto-estima? No. Tener autoestima no es narcisismo.Todo lo contrario. Vamos a ver. El narcisismo psicológico tiene cinco características relevantes: 1. "Requiere excesiva admiración" 2. Las reglas no se aplican a ellos. 3. Creen "que son superiores, especiales o únicos y esperan que los demás lo reconocen, debe asociarse sólo a las personas que son especiales o de un estatus más alto." 4. "actitudes y comportamientos altivos y arrogantes". 5. Una "falta de empatía", es decir, "la renuencia a reconocer o identificarse con los sentimientos y necesidades de los demás. (Vitz & Vitz, 2007). 

Esta última característica, la falta de empatía, resulta ser uno virus social más amplio. Surge "por el desprecio o la ira en contra de aquellos que se sienten perjudicados por los cambios (...)" (Vitz & Vitz, 2007). Por la actitud de la ortodoxia al juzgar constantemente a otros.

Según o filósofo francés Gilles Lipovetsky, en el libro “La era del vacío: ensayos sobre el individualismo contemporaneo", los jóvenes viven en uno "bunker" narcisista. No es solo el culto del cuerpo, al la belleza de la moda, al no envejecimiento, al consumo. Es también otro estilo de vida. Los jóvenes piensan antes de todo en su bienestar: yoga, acupuntura, medicinas alternativas, los orientalismos pero olvidando sus raíces, sectas religiosas, fármacos alternativos, chamanismo, profecías Mayas, psicoterapias suaves, etc.

El narcisismo psicológico deja de ser uno desvío minoritario. Con la pérdida de un sentido de la historia, uno olvido general, y la explosión hedonista, convierte se en una verdadera epidemia.

Y, mas peligroso aún, el hecho de que el campo de las nuevas espiritualidades fue invadido por ella. Este narcisismo psicológico con la moda de la "Nueva Era" (New Age), ahora también es un narcisismo espiritual.Dicen muchos jóvenes: "Cuando rezo, rezo a mí mismo" (Vitz & Vitz, 2007).  "Mi sesión de yogá es organizado para mi cuerpo racionalizado ser más sano y, claro, disfrutar más". Tener una apariencia joven y atlética. La vejez es dolencia. Y ser viejo es una tragedia porque, para éstos jóvenes, los de más edad son seres incompletos y, peor aún, enfermos.

No es suficiente un trabajo de abertura a las nuevas espiritualidades. Es necesario tener consciencia que el virus del narcisismo, con su crueldad cínica, también está presente en muchas prácticas que se presentan como puras y bondadosas. La verdadera terapia, el autentico cambio comienza con esa toma de consciencia.

José Pinheiro Neves (Portugal)





Site consultado nas citações:
Paul Vitz & Daniel C. Vitz. "Messing with the Mass: The problem of priestly narcissism today" in Homiletic and Pastoral Review (Novembro de 2007). Disponível em http://www.catholiceducation.org/articles/civilization/cc0254.htm
Tradução portuguesa: