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23/09/13

O "duplo vínculo": a intolerância ambivalente no facebook

O "duplo vínculo" é o cancro da sociedade moderna, do capitalismo, segundo Gregory Bateson, a origem de muitas doenças, de muita auto-culpabilização.
"Vamos a um exemplo: a filha que já tem 20 anos de idade e resolve sair de casa e ir morar sozinha. Ela conta para a mãe e a mãe responde que está feliz por ela ter independência mas, ao mesmo tempo, saem lágrimas dos olhos. A qual mensagem a filha vai responder? A mensagem verbal ou a mensagem corporal? Talvez a filha resolva ter firmeza e sair de casa, mas fica com um sentimento de culpa e ambiguidade". in http://joaopedromeyer.blogspot.pt/2013/02/teoria-do-duplo-vinculo.html

A possível solução para evitar a culpabilização, para matar o mal pela raíz, exige entender a metacomunicação. Ser assertivo. "A única forma de sair de um paradoxo é a meta comunicação. É a comunicação que fala sobre a comunicação. No exemplo da filha, a saída seria ela dialogar sobre as duas mensagens que ela está recebendo e perguntar a qual delas ela deve dar mais atenção."  in http://joaopedromeyer.blogspot.pt/2013/02/teoria-do-duplo-vinculo.html

Foi esta a base, simplificando imenso,da experiência terapêutica de Gregory Bateson. O problema não é de solução fácil quando estas situações têm por detrás anos de dominação e de chantagem afectiva. Ou, no caso extremo, quando são a base de arquétipos inspirados nas sociedades patriarcais.

Ora, esta atitude repete-se milhares da vezes no facebook. É clássica no elogio de uma foto por uma mulher aparentando estar feliz com a beleza da amiga. São palavras cheias de veneno. Mas o pior é quando essas palavras se disfarçam por detrás do "amor" e pouco a pouco abafam a vontade de liberdade e de autonomia do outro.
O pior é quando somos educados por um progenitor que propaga esta doença. Falta de amor positivo.
É necessário distinguir muito bem entre culpabilização e sentido pessoal e autónomo de culpa,, a consciência dos erros que se cometem. A culpabilização é um veneno insidioso que pouco a pouco nos esvazia. E mais quando não sabemos a sua origem, quando perdemos o contacto com o nosso eu profundo e autónomo.

18/09/13

Narcisismo nas redes digitais e no planeta em geral: um novo vírus mortal?

O narcisismo, a nova peste das redes digitais, é puro egoísmo. É também muito mais do que isso. É a base da forma actual da loucura normalizada chamada capitalismo do consumo em massa. É um vírus que os estudiosos definem como a causa da imensa maioria das psicopatologias e também de imensa destruição somatizada em doenças como o cancro, etc. Esta tese é comprovada infelizmente por milhares de psicólogos, psicoterapeutas em todo o mundo. Não é uma questão moral (apenas), é uma forma de estar no mundo, incentivada e dita normal, exemplo a seguir (de forma claro camuflada com termos como "moda", ser moderno, ser bonita, glamour, elegância, etc, etc...) pelos homens e muitas mulheres (mulheres dominadas pelo paradigma da masculinidade) dos media e do mundo empresarial.
Eu vejo assim as coisas: imagine que se descobria que o ser humano tinha um vírus (como a SIDA) quase genético que é necessário combater, muito perigoso, pois pode originar a destruição do planeta, de todos nós ou, na hipótese mais optimista, tornar a vida dos nossos filhos um pesadelo. Imagine o planeta daqui a 40 anos com o estilo de vida e de consumo a crescer exponencialmente assim como o número de homo sapiens no planeta.
Bem, nesse caso a maioria dos homo sapiens que nos dirigem diriam: "esse vírus é uma calamidade mas é uma questão do foro moral ou religioso. Os que fazem política e os que produzem, os donos das fábricas, escritórios, dirigentes da gestão, esses não têm nada a ver com o combate". Por sua vez, a maioria das religiões oficiais diria: "Bem, isso é mau mas basta cada um destruir o vírus por si, basta ter vontade e claro vir à nossa missa. O narcisista é uma pessoa egoista e nós não o devemos ser". Se perguntar aos seus amigos, colegas e familiares todos lhe vão dizer que não são egoistas. São sempre os outros que têm o vírus.
Perante esta calamidade, você não se indignaria e faria todo o possível por combater o vírus? Certo? O psicanalista Lacan diz-nos que o narcisismo faz parte da epifilogénese do ser humano. É o berço dos psicopatas que nos dirigem por todo o lado e dos que batem todos os dias nas mulheres, nos seus subordinados e nos animais domésticos (muitas vezes de forma virtual, por palavras e pela manipulação, muito mais efectivo e dificil de sarar).
Entendem agora a minha insistência na "Ecosofia da mente nas redes digitais"? Como dizia Gregory Bateson, não basta uma ecologia das ervas daninhas, da poluição e do ambiente físico. É urgente incentivar uma ecologia das ideias daninhas, uma ecologia do narcisismo que não se limite a uma atitude moralista ou psicologista. 

11/05/13

Porque é que ainda não saí do Facebook?

Muitos amigos costumam dizer-me que estar no Facebook é uma perda de tempo. Os mais radicais insistem afirmando que estou a ser colonizado pelas grandes corporações que usam os meus dados em função dos seus interesses comerciais. Outros sugerem mesmo que é um lamaçal, um buraco negro virado para o narcisismo, consumo e o sexo mercadoria. Numa palavra, segundo eles, estou a ser apanhado pela feitiçaria do capitalismo. 

Contudo, talvez as coisas nãos sejam assim tão lineares e dicotómicas. Talvez seja possível divulgar a inteligência ecosófica, a ecologia profunda nestas redes digitais. Ou seja usar os instrumentos da escravidão para libertar. 

Partilhar no facebook filmes e textos inteligentes é uma forma de resistir à onda de estupidificação e de narcisismo bacoco que caracterizam, em grande parte, as redes digitais. É um prazer partilhar estes olhares alternativos. Uma sabedoria ecosófica que nos pode levar a um outro olhar no nosso quotidiano. 

Vou dar um pequeno exemplo.




Partilhar o filme "Tudo Vigiado por Máquinas de Adorável Graça" pode funcionar como uma terapia à distância para nos libertar deste apelo-feitiço, esta sedução demoníaca pelas máquinas.Como diz Luiz Carlos Pinto, "este filme parece desde o início uma referência à miríade de máquinas, maquinetas, gadgets, equipamentos, eletro-coisas e i-coisas, computadores, plataformas e sistemas de informação que alçamos à condição de essenciais para lidar com a vida cotidiana. Para sermos mais felizes, compreendidos, lembrados, vistos; para sermos melhores, enfim. O feitiço dessas mercadorias vem radicalizando a sublimação do homem pela coisa, ou pelo motor. Você vale por quanto pesa o seu motor de mão".

Coisas que me vieram à mente. "Uma pessoa vale não pelo que é mas pela potência do seu computador, telemóvel, automóvel, pelo dinheiro-feitiço que possui no banco, etc. Somos avaliados pela quantidade de ausência, de nada que possuímos. A feitiçaria da mercadoria é mesmo poderosa, bolas!" 
Ver filmes como este pode então criar uma sensação de insatisfação que nos leva a fazer coisas diferentes. A cura  começa por usar menos o nosso automóvel, usar menos o telemóvel e o facebook para conversar mais com os amigos à volta de uma lareira ou de uma comida saborosa por exemplo. Outro exemplo: em vez de perder centenas de horas no Facebook nos jogos sugadores de tempo tipo Farmville, criar uma mini-horta urbana na varanda do nosso apartamento, etc. Micro acções para sair desta feitiçaria da ausência, a feitiçaria do capitalismo. Estarmos mais aqui e agora  em conexão com o mundo mineral, as plantas, animais e seres humanos. 

Sites referidos no texto: