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15/08/14

Eu gostei de tudo que vi no Facebook durante dois dias. Aqui está o que me sucedeu depois.



"O "gostar" e o "favorito" são as novas métricas de sucesso, muito literalmente. Não são apenas os ego-feeders para as coisas que colocamos on-line, como indivíduos, mas os anunciantes também acompanham as suas campanhas no Facebook pela frequência com que elas são "queridas". [...] Gostar, no facebook, é um ato económico.

Eu gostei de tudo, no Facebook. Ou pelo menos foi o que eu fiz, durante 48 horas. Literalmente tudo o o que Facebook me enviou, eu gostei de tudo, mesmo o que eu odiava. Decidi embarcar numa campanha de gostar de tudo de forma consciente, para ver como isso afetaria o que o feed do Facebook me mostrava. Eu sei que isso soa como um golpe (e foi), mas também foi realmente apenas uma experiência em aberto. Eu não tinha certeza de quanto tempo eu iria mantê-la (48 horas era tudo que eu podia suportar) ou o que eu aprender (possivelmente nada.)

Os Robôs do Facebook, comandados pelo algoritmo dos programadores, decidiram que a maneira de manter a minha atenção era escondendo as pessoas e só me mostrando as coisas que outras máquinas têm bombeado para fora. Estranho.

Quando fui para a cama na primeira noite, no meu feed de notícias, as atualizações que eu vi foram (por ordem): Huffington Post, Upworthy, Huffington Post, Upworthy, anúncio publicitário de um Levi, Space.com, Huffington Post, Upworthy, The Verge , Huffington Post, Space.com, Upworthy, Space.com.

Além disso, antes de me meter na cama, eu me lembro de pensar "Ah, merda. Eu tenho que gostar de algo sobre Gaza ", e cliquei o botão "Gosto", num post com uma mensagem pró-Israel.

Na manhã seguinte, os itens no meu feed de notícias haviam mudado muito, muito para a direita conservadora. [...] O jornal "Tribuna Conservadora" aparece de novo, e de novo, e de novo no meu Feed de notícias. Eu comecei a aprender a sua sintaxe muito particular. Foi algo como isto que apareceu no meu feed do facebook:






A frase contando algumas notícias controversas. Boa! 


A frase explicando por que isso é bom. 



A chamada à ação, muitas vezes terminando com uma pergunta?



Este é um problema muito maior do que o Facebook. Isso me lembrou do que pode correr mal na sociedade, e porque nós agora muitas vezes falamos um "com" o outro, em vez de um "para" o outro. Montamos as nossas "queridas" bolhas de filtro político e social que se reforçam a elas próprias. As coisas que lemos e assistimos tornaram-se cada vez mais hiper-nicho, cada vez mais dentro de uma bolha fechada e tribal,  onde apenas se atendem os nossos interesses específicos. Descemos para os buracos dos coelhos, fechados nos nossos interesses especiais, até que nos sentimos perdidos no jardim da rainha, amaldiçoando todo o mundo que vive acima do solo, fora dos buracos.

Enquanto eu via as mudanças a sucederem-se, o que eu nunca esperava foi o impacto que o meu comportamento teve sobre os feeds dos meus amigos. Eu ficava pensando que o Facebook iria limitar-me, mas em vez disso, ficou cada vez mais voraz. O meu "feed" de notícias transformou-se num desfile  de marcas e de marketing político e, como eu interagia com eles, o Facebook obedientemente informou todos os meus amigos e seguidores.

Quando eu postei uma atualização de status no Facebook dizendo "eu gosto de você", eu ouvi de muitas pessoas que a minha atividade esquisita tinha inundado os seus feeds. "O meu newsfeed é composto por 70 por cento coisas que o Mat gostou", observou o meu amigo Heather."

, ""I Liked Everything I Saw on Facebook for Two Days. Here’s What It Did to Me", in Wired, 11 de Agosto de 2014.


Tradução de José Pinheiro Neves



Versão original:

"I Liked Everything I Saw on Facebook for Two Days. Here’s What It Did to Me"

"The like and the favorite are the new metrics of success—very literally. Not only are they ego-feeders for the stuff we put online as individuals, but advertisers track their campaigns on Facebook by how often they are liked. A recent New York Times story on a krill oil ad campaign lays bare how much the like matters to advertisers. Liking is an economic act.


I like everything. Or at least I did, for 48 hours. Literally everything Facebook sent my way, I liked—even if I hated it. I decided to embark on a campaign of conscious liking, to see how it would affect what Facebook showed me. I know this sounds like a stunt (and it was) but it was also genuinely just an open-ended experiment. I wasn’t sure how long I’d keep it up (48 hours was all I could stand) or what I’d learn (possibly nothing.)

Facebook’s robots decided that the way to keep my attention is by hiding the people and only showing me the stuff that other machines have pumped out. Weird.

As I went to bed that first night and scrolled through my News Feed, the updates I saw were (in order): Huffington Post, Upworthy, Huffington Post, Upworthy, a Levi’s ad, Space.com, Huffington Post, Upworthy, The Verge, Huffington Post, Space.com, Upworthy, Space.com.


Also, as I went to bed, I remember thinking “Ah, crap. I have to like something about Gaza,” as I hit the Like button on a post with a pro-Israel message.



By the next morning, the items in my News Feed had moved very, very far to the right. I’m offered the chance to like the 2nd Amendment and some sort of anti-immigrant page. I like them both. I like Ted Cruz. I like Rick Perry. The Conservative Tribune comes up again, and again, and again in my News Feed. I get to learn its very particular syntax. Usually it went something like this:

A sentence recounting some controversial news. Good!


A sentence explaining why this is good.



A call to action, often ending with a question?

This is a problem much bigger than Facebook. It reminded me of what can go wrong in society, and why we now often talk at each other instead of to each other. We set up our political and social filter bubbles and they reinforce themselves—the things we read and watch have become hyper-niche and cater to our specific interests. We go down rabbit holes of special interests until we’re lost in the queen’s garden, cursing everyone above ground.

While I expected that what I saw might change, what I never expected was the impact my behavior would have on my friends’ feeds. I kept thinking Facebook would rate-limit me, but instead it grew increasingly ravenous. My feed become a cavalcade of brands and politics and as I interacted with them, Facebook dutifully reported this to all my friends and followers.

When I posted a status update to Facebook just saying “I like you,” I heard from numerous people that my weirdo activity had been overrunning their feeds. “My newsfeed is 70 percent things Mat has liked,” noted my pal Heather."

27/07/14

Somos livres ou escravos quando andamos no Facebook?


Foto: Instalación '24 hrs in photos' de Eric Kessel / GUNNAR KNECHTEL


Somos livres ou escravos quando nos deixamos seduzir pelas redes sociais? 

De um lado, muitos dizem que a rede é um campo de oportunidades. Há como que um deslumbramento perante a magia e as possibilidades da nova tecnologia. Depois, pouco a pouco, começa a surgir a dúvida e instala-se a paranóia. Será que estou a ser espiado e controlado? Será que tudo isto serve apenas para reforçar o controlo planetário das grandes corporações e do capitalismo financeiro? Não será o Facebook (e as outras redes que nos envolvem) uma forma disfarçada de uma nova religião mundial? Sentimo-nos, ao mesmo tempo, ameaçados por um poder gigantesco e impelidos a agir para evitar a perda de privacidade. Um agir que pode fazer-nos cair no mundo da paranóia e da desconfiança.

Como encontrar o equilíbrio entre a Apoteose e o Apocalipse? Como ser capaz de viver sem preconceitos no mundo da complexidade, conhecer esse mundo nos seus lados mais claros e também mais sombrios e simultaneamente dar-se conta do seu carácter profundamente alienante, profundamente religioso, no sentido mais cruel, ao criar cada vez maiores desigualdades entre os humanos?

jpn

"Evgeny Morozov o Luke Dormehl, Edward Snowden o un estudiante holandés, grandes diarios o diversos sitios en la Red han acompañado su emplazamiento con alertas muy contundentes sobre el uso de nuestros datos en Internet y el peligro que ello supone en materia de libertad o de protección. Datos que, dicho sea de paso, no son ofrecidos por el espionaje o la vigilancia de antaño —KGB o Stasi, CIA o FBI, Mosad o Interpol—, sino por nosotros mismos, que vamos desgranando, minuto a minuto, el catálogo de nuestros perfiles para uso y abuso de las compañías comerciales, los Gobiernos y sus agencias de seguridad.
[...] Crece, en fin, una corriente de sospecha, por no decir paranoia, que ha venido arrastrando a un número creciente de individuos que se sienten amenazados y al mismo tiempo responsables de su desprotección [en la red]. Una situación que estos autores consideran irreversible, narrada desde una preocupación que llega demasiado tarde. El eslogan "Internet nos hará libres" parece desdibujarse ante la certidumbre de que, al menos, también nos puede hacer esclavos.
[...] Asimismo, uno sale con cierta confirmación del carácter infalible de Internet; como si la zona pornográfica, rudimentaria, gamberra, kitsch, incluso barroca del sistema no fuera capaz de jibarizarlo y llevarlo a los límites de su legislación o funcionamiento.

Big Bang Data es deudora, entre muchos otros, del paradigma Complexity, aunque se instala en un momento en que el de la Desigualdad (Inequality) está llamado a afianzarse, como puede verse cruzando una calle o en el último libro de Thomas Piketty. Desde esa circunstancia, es muy probable que todos los conflictos se subordinen a esa disparidad que también crece por minutos bajo esa montaña de datos que nos presuponen entregados, de motu proprio, a nuestra dominación."

Iván de la Nuez, "Del Apocalipsis a la apoteosis", in El Pais, 26 de Julio de 2014. http://cultura.elpais.com/cultura/2014/07/24/babelia/1406193545_148939.html

Texto de Iván de la Nuez encontrado no facebook de Jorge Martins Rosa

28/05/14

A arte de ruminar no Facebook



"Verdade seja que, para elevar assim a leitura à dignidade de 'arte' é mister, antes de mais nada, possuir uma faculdade hoje muito esquecida (por isso há de passar muito tempo antes dos meus escritos serem “legíveis”), uma faculdade que exige qualidades bovinas, e não as de um homem fim-de-século. 

Falo da faculdade de ruminar".

Nietzsche, em Genealogia da Moral

Sils-Marie, julho de 1887.


1. De onde me surgiu esta palavra tão pouco cultural, a arte de ruminar? 



Tirei essa ideia de um trecho do prefácio que o filósofo Friedrich Nietzsche escreveu para a sua obra, Genealogia da Moral. 

2. E como se rumina no Facebook?

Tal como se deve ler um livro de forma lenta, mastigando e ruminando, também assim se deveria estar no Facebook.




Comecemos pelo princípio, diria, de forma redundante. No excerto de Nietzsche, o mais importante não está numa eventual campanha de divulgação das virtudes da leitura. Embora também possa, numa pequena parte, ter essa conotação. O que reforça a minha ideia de que ele estava a pensar em algo que era mais do que ao modo lento de leitura em si. Não era isso que se referia o filósofo.


É essa faculdade que eu, homem de início do século XXI, tento recuperar.

08/04/14

"Não é ingénuo acreditarmos que a cidadania digital é possível; o que é ingénuo é pensarmos que isso nos vai cair no colo."

Foto: Público, 12 de Março de 2014


Muitos utilizadores da web e do Facebook estão convencidos que, como os serviços são gratuitos, não há possibilidade de reclamar. Muitos deles pensam que devemos aceitar humildemente o que nos oferecem como um pobre a quem dão uma esmola.

Comentário no Facebook: "Estamos a falar de serviços gratuitos, certo? Não há consumidores, há utilizadores. Não vejo senso em reclamar quando estamos a usufruir de algo gratuitamente. É certo que a empresa faz milhões por outros meios, mas eu nunca dei um tostão a google. Não me vejo no direito de "exigir" suporte técnico. Quanto muito, talvez pedir uma certa assistência." [...] "Eu concordo que possamos reclamar por exemplo da manutenção de um parque público por exemplo (afinal pagamos impostos), ou do acesso à uma certa floresta (a natureza é de todos). Mas neste caso falamos de propriedade exclusiva de uma empresa que decide fornecer serviços gratuitos. Concordo com o envolvimento e sugestões dos utilizadores, mas discordo de sentimentos de revolta por parte dos mesmos por não lhes darem o que querem. A google habituou-nos mal, foi o que foi. [...] Quando criamos um endereço na google estamos a concordar com certos acordos de utilização e sabemos à partida que a qualquer momento podem apagar a base de dados com os nossos mails pois não nos pertencem mas sim a empresa. Claro seria inadmissível, mas é esse o risco que corremos e sabemos bem."

Aparentemente estes argumentos parecem difíceis de refutar. São partilhados pelas grandes corporações que controlam a web. Contudo, se me permitem, há por detrás da "oferta" dos serviços do Google um aspecto que tende a ser olvidado. As empresas usam uma plataforma sem pagarem quase nada (o fundador da web, o britânico Tim Berners-Lee, optou por partilhar o software sem se transformar num milionário como fez Bill Gates; ou como fazem os outros colossos da web como o Google ou a empresa do Facebook com a excepção, entre outras, da wikipedia) obtendo lucros enormes (publicidade, marketing, etc.) com os dados que nós como consumidores lhes fornecemos.

A gratuitidade é uma mentira. Não existem almoços grátis na lógica empresarial. Por esse motivo, a lógica da cidadania do consumidor devia ser implementada na web. A cidadania digital.

A propósito permitam-me esta partilha: "O britânico Tim Berners-Lee, criador da web, apelou aos cidadãos que lutem por manter a World Wide Web "aberta e neutral", através da aprovação de uma espécie de Constituição universal que salvaguarde os direitos de todos os utilizadores." "E para quem pensa que o britânico ainda vive no final da década de 1980, com uma proposta que roça a ingenuidade, a sua resposta não podia ser mais desafiadora: "Não é ingénuo acreditarmos que isso é possível; o que é ingénuo é pensarmos que isso nos vai cair no colo."




in Alexandre Martins, "Tim Berners-Lee quer devolver o controlo da World Wide Web aos cidadãos" Público, 12 de Março de 2014, in http://www.publico.pt/tecnologia/noticia/criador-da-world-wide-web-defende-constituicao-universal-para-direitos-dos-utilizadores-1628038

23/09/13

O "duplo vínculo": a intolerância ambivalente no facebook

O "duplo vínculo" é o cancro da sociedade moderna, do capitalismo, segundo Gregory Bateson, a origem de muitas doenças, de muita auto-culpabilização.
"Vamos a um exemplo: a filha que já tem 20 anos de idade e resolve sair de casa e ir morar sozinha. Ela conta para a mãe e a mãe responde que está feliz por ela ter independência mas, ao mesmo tempo, saem lágrimas dos olhos. A qual mensagem a filha vai responder? A mensagem verbal ou a mensagem corporal? Talvez a filha resolva ter firmeza e sair de casa, mas fica com um sentimento de culpa e ambiguidade". in http://joaopedromeyer.blogspot.pt/2013/02/teoria-do-duplo-vinculo.html

A possível solução para evitar a culpabilização, para matar o mal pela raíz, exige entender a metacomunicação. Ser assertivo. "A única forma de sair de um paradoxo é a meta comunicação. É a comunicação que fala sobre a comunicação. No exemplo da filha, a saída seria ela dialogar sobre as duas mensagens que ela está recebendo e perguntar a qual delas ela deve dar mais atenção."  in http://joaopedromeyer.blogspot.pt/2013/02/teoria-do-duplo-vinculo.html

Foi esta a base, simplificando imenso,da experiência terapêutica de Gregory Bateson. O problema não é de solução fácil quando estas situações têm por detrás anos de dominação e de chantagem afectiva. Ou, no caso extremo, quando são a base de arquétipos inspirados nas sociedades patriarcais.

Ora, esta atitude repete-se milhares da vezes no facebook. É clássica no elogio de uma foto por uma mulher aparentando estar feliz com a beleza da amiga. São palavras cheias de veneno. Mas o pior é quando essas palavras se disfarçam por detrás do "amor" e pouco a pouco abafam a vontade de liberdade e de autonomia do outro.
O pior é quando somos educados por um progenitor que propaga esta doença. Falta de amor positivo.
É necessário distinguir muito bem entre culpabilização e sentido pessoal e autónomo de culpa,, a consciência dos erros que se cometem. A culpabilização é um veneno insidioso que pouco a pouco nos esvazia. E mais quando não sabemos a sua origem, quando perdemos o contacto com o nosso eu profundo e autónomo.

Livro sobre as redes sociais. "Você acha que usa a internet, mas está sendo usado por ela".

Extractos da entrevista a Bernardo Carvalho, autor do livro sobre a internet "Reprodução" (Companhia das Letras).
"Tive um processo longo de percepção de uma fascistização do mundo, de um jeito ambíguo, porque as pessoas criam o fascismo achando que estão encontrando a liberdade. A internet é libertária, democrática, mas também faz você entregar sua privacidade e se relacionar com corporações como se fossem Deus ou a natureza. Elas dizem: "Você não precisa pagar nada". E você se entrega acriticamente, porque a ideia de não fazer esforço é sedutora. E há o narcisismo, a exposição no Facebook, que pega um ponto central. É perverso, a conquista vai em pontos frágeis da psique, você se sente uma celebridade. Do ponto de vista político, você acha que está usando, mas está sendo usado. O livro expressa esse desconforto.
[...]
A internet "talvez tenha acirrado algo que sempre existiu em potencial. Você não tem privacidade, mas pode ter anonimato, o que permite uma manifestação de imbecilidade sob a proteção do anonimato. Estava incomodado com isso e pensei nesse narrador que representa o ódio absoluto, o anonimato da internet. No livro há uma frase do [filósofo espanhol] Ortega y Gasset: "Todo povo cala uma coisa para poder dizer outra. Porque tudo seria indizível". O personagem tem a informação absoluta, mas nada do que ele diz quer dizer muito. Não adianta você saber um monte de coisas, ser informado na superficialidade midiática sem uma compreensão do mundo. Você só reproduz, não consegue mais produzir.
[...]
Notei um ódio no qual reconheci esse anônimo da internet [protagonista do livro]. O protagonista cita os "colunistas" da mídia, que, nota-se, alimentam o ódio dele. Pensou em alguém específico? Isso resume várias pessoas. É uma grosseria de pensamento, gente que fala como se falasse com crianças. O problema não é ser colunista de direita, é o tipo de argumento primário e fácil de ser derrubado. O negócio é no grito porque é insustentável. E isso produz best-sellers no Brasil. Há uma espécie de inconsequência política que está no discurso desse personagem. A burrice era privada, mas agora é pública.
[...] A literatura passou a ser pautada pelo gosto da média. Mas literatura é reflexão, não só produto de consumo, não só contar uma história. Tem um elemento de rebeldia, de criação. Não sei se incomoda, mas esse livro me deu prazer de fazer e me dá prazer de ler. Há uma coisa engraçada no discurso do ódio.
Não tenho clareza do que o livro representa, mas é algo político como nunca fiz, tem um humor que nunca tive. Sempre fui contra a literatura política, atrelada, mas desta vez tinha uma urgência. O livro não busca uma solução. É uma visão trágica das camadas de possibilidades".
 
Bernardo Carvalho

Três formas de estar no Facebook (inspiradas num texto de Fernando Pessoa)

"Vivemos todos longínquos e anónimos; disfarçados, sofremos desconhecidos. A uns, porém, esta distância entre um ser e ele mesmo nunca se revela; para outros é de vez em quando iluminada, de horror ou de mágoa, por um relâmpago sem limites; mas para outros ainda é essa a dolorosa constância e quotidianidade da vida".
 
Fernando Pessoa, O Livro do desassossego


   Três formas de viver a relação com a máscara, com o "Facebook", com todas as nossas redes sociais. Começam a ser definidas, desde criança, a partir da nossa experiência com a primeira rede, a mais íntima: a rede ligando ou não o meu eu profundo com a máscara do social. O primeiro caminho ignora a distância e vira-se para o exterior. Vive numa terrível solidão sem se aperceber.  Assim começa a vida do narcisista, do psicopata ou neurótico social dominados pelo mito da masculinidade. A fonte do empresário inovador e destruidor, como dizia o economista Joseph Schumpeter. Para outros, essa separação aparece como um relâmpago percepcionado com horror ou mágoa - a via do revoltado ou do sofredor. Também é a origem da auto-punição do(a) esquizofrénico(a) fugidío(a). É, na imensa maioria dos casos, necessária a passagem por este momento para, mais tarde, atravessar a ponte. Por fim, na terceira via, a consciência plena e diária desse sofrimento é fonte de energia. A dolorosa constância e quotidianidade da vida. Ponto de partida essencial para uma autêntica in-dividuação.

12/09/13

This is Fakebook life!

 
 
"Sometimes, that connection, "talk to myself", has limited connectivity.
 
The other talk, the "talk to others" about himself, make too much interferences, noise. And then, the "talk to myself" became gradually a faketalk, a "talk about myself", a "talk to myself about others that I see as beautiful and cool things that I should have or be".



Too much speed, to much noise of faking faces and emotions, faking sex, faking work, faking fathers, faking everything.

First version of this faketalk - the conformist version: "I am smart, attractive, beautiful and never crazy. Special person, yes. But crazy, never".

Second version of faketalk: the crazy version. "Nowadays, being crazy is cool, YAAA! hold on, yes i am crazzzzy. Not real, you know, not real".

Third version of faketalk: the 'new age' talk. "I don´t have to talk to my self, i do everyday meditation. I have taking courses about that, ceremonials of sacred gods and I know everything about my self. I know my Karmas and i am working hard on this. U know, karmas is no easy.. u know, meditation is coooollll".
 
END
This is Fakebook Life!"


 
in "Anonymous fakebook"

11/09/13

A propósito do "narcisismo" no facebook: notas avulsas sobre a "fase do espelho" referida pelo psicanalista Jacques Lacan



“O homem e a mulher são, do ponto de vista corporal, fetos de primata
 que atingiram [prematuramente] a maturidade sexual” (Bolk, 1960).
É necessário dizer claramente que, ao contrário do discurso dos psicólogos da normalidade, o "narcisismo" não é um desvio ou uma doença. É a característica essencial da sociedade ocidental em que vivemos. Um vírus que tende a aumentar exponencialmente com as redes digitais, com a aceleração do fascínio pelas imagens e, finalmente, com a alucinação "normalizada" que corre nas redes sociais, nos jogos e no sexo digital.
Para se perceber a noção de "narcisismo" referida em posts anteriores, irei recorrer ao psicanalista Jacques Lacan.
Antes, alguns comentários rizomáticos. Acerca do homem como um ser epifilogeneticamente alienado, um ser que tende a viver imenso tempo na "fase do espelho". Uma tendência hipervalorizada no Facebook. 


De acordo com o psicanalista Jacques Lacan, somos seres em angústia, todos potencialmente neuróticos, pela nossa ligação demasiado intensa e longa, mimética com a mãe enquanto bébés. Somos, na verdade, o animal que passa mais tempo nesse estado de total falta de autonomia depois de nascer. De algum modo, o homo sapiens é cientificamente um "nascido"  antes do tempo, um "aborto". Mais tarde, ficamos naturalmente marcados para toda a vida. Dependendo da nossa liberdade e da forma como somos "educados" ou "libertados", podemos seguir sendo egocêntricos num eu-espelho, num narcisismo que a sociedade de consumo incentiva todos os dias. Podemos todos os dias viver na euforia do espelho, numa traição ao eu-profundo (ver livro de Arno Gruen: A traição do eu). Esse narcisismo é o campo onde pode nascer a semente da crueldade psicopata. Ou então, se tivermos sorte, podemos "dar a volta", muitas vezes por caminhos pouco luminosos, encontrando pouco a pouco o nosso eu autêntico, um eu descentrado, pré-individual, como defende algures o filósofo Gilbert Simondon e o psicanalista Carl GustavJung. Mas isso é outra história...

Mas ao contrário, por exemplo de outros animais como o cão, com uma outra percepção visual [menos concentrada na "fovea", no centro da retina] e um uso mais amplo dos sentidos nomeadamente o olfacto, o homem tem um olhar dirigido, analítico, pouco holístico (ver o Manifesto Cyborgue da bióloga e pós-feminista Donna Haraway). O homem está centrado na percepção visual da fovea (necessária para o homem primitivo ter acuidade visual na caça) tendendo por isso, na sociedade actual, a ficar dependente do espelho e das percepções visuais "focadas". Por isso, a insistência doentia nas imagens, no sexo por imagens, na apresentação da nossa "face", na rostridade através, por exemplo, das fotos pessoais no "Facebook".

Este eu-ego, criado no mimetismo da infância na relação com a mãe, é uma "instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do Estádio do Espelho". Um 'Eu' criado pelo nosso Imaginário, "juntamente com fenómenos como o amor, o ódio, a agressividade" (ver "Jacques Lacan", In Wikipedia). São fases imaturas, de máscara mas que podem durar infelizmente toda a vida.

A sociedade do "trabalho-mercadoria" faz todo o possível para que assim seja. Infelizmente, para mal do planeta e das nossa vidas, a maioria dos que nos governam, principalmente os gestores das grandes corporações multinacionais, são no fundo crianças egocêntricas com tendência psicopatas (ver livro do conhecido psicólogo Arno Gruen, "A loucura da normalidade").

Vejamos então o texto de Léa Silveira Sales.

“O homem é, do ponto de vista corporal, um feto de primata que atingiu a maturidade sexual”. 

"

Segundo Lacan (1966, p. 96) há  “[...) Lacan confere o estatuto de “Discórdia primordial [do homem]”; o fato de nascer prematuro – com o mal-estar e a falta de coordenação motora que isso acarreta – não permite ao homem o estabelecimento de relações fisiológicas suficientes com o meio e é essa lacuna que a imagem possui a função de preencher [nomeadamente a importância do olhar da mãe que o apaixonado, um estado de 'pathos', retoma no olhar do amado ou amada]; é ela que passa a mediar a relação do homem com o mundo.


O estágio do espelho constitui, justamente, um dos modos dessa relação: “A função do estágio do espelho revela-se [...] como um caso particular da função da imago, que é estabelecer uma relação do organismo com sua realidade [...]” (Lacan, 1966, p. 96).

Lacan compara o recurso à imago no ser humano ao fenômeno da deiscência (abertura das sementes) na botânica; Bowie (1991, p. 29) esclarece a analogia: “[...] a auto-alienação do sujeito é tão ‘natural’, tão inevitável, quanto a auto-propagação das plantas.”
Segundo Ogilvie (1991), o homem é finalmente definido como um ser inacabado a partir de 1926 com os trabalhos de Bolk que apoiavam essa definição em dois fatores: a neotenia – grande demora no desenvolvimento com relação às outras espécies – e a 
fetalização – existência de traços anatômicos arcaicos: características que, nas outras espécies, pertencem apenas ao estágio fetal permanecem presentes no homem durante toda a sua vida; nas palavras de Bolk (1960 apud Ogilvie, 1991, p. 115): “O homem é, do ponto de vista corporal, um feto de primata que atingiu a maturidade sexual”. 

Para Lacan (1966, p. 186), é preciso, então, que a imagem venha suprir, no homem, as deficiências causadas pela neotenia e pela fetalização

“É em função desse atraso do desenvolvimento que a maturação precoce da percepção visual adquire seu valor de antecipação funcional”. 

Léa Silveira Sales, "Posição do estágio do espelho na teoria lacaniana do imaginário" 

31/08/13

Facebook: mudar o Feed para que nada mude...





O que significa esta mudança no algoritmo que gere o nosso feed de notícias? A lógica do negócio em vez da lógica da inovação e da criação? Porquê?

Vejamos em primeiro lugar o que significa "memes". "Na sua forma mais básica, um Meme de Internet é simplesmente uma ideia que é propagada através da World Wide Web. Esta ideia pode assumir a forma de um hiperlink, vídeo, imagem, website, hashtag, ou mesmo apenas uma palavra ou frase. Este meme pode se espalhar de pessoa para pessoa através das redes sociais, blogs, e-mail direto, fontes de notícias e outros serviços baseados na web tornando-se geralmente viral." (Wikipedia). Ora, aparentemente esta mudança quer dizer que os gestores do Facebook privilegiam "memes" de alta qualidade. Que querem melhorar a qualidade do que lemos.

Será assim? Vejamos o que sucedeu no seu estudo: "O exemplo básico, dado pelo próprio Facebook, é o seguinte: quando você está almoçando, uma determinada notícia pode não ser tão interessante, mas passa a sê-lo quando você retorna ao computador do trabalho. O News Feed passa a considerar o que foi importante nos acessos anteriores, para repetir alguns desses itens até que você os veja. Provavelmente a novidade tem a ver com os posts que aparecem mais para o meio do News Feed, visto que — também provavelmente — todo mundo olha os primeiros itens da lista. A rede social conduziu testes do tipo A/B para verificar como essa mudança afeta o comportamento dos internautas em relação aos posts. O engajamento (likes + compartilhamentos + comentários) avançou 5% em relação às atualizações de amigos e 8% em conteúdo de páginas oficiais". inhttp://tecnoblog.net/137058/o-news-feed-do-facebook-mudou/

Este ponto é o mais importante. Se bem entendi os resultados (corrijam-me se estou enganado), aumentou a frequência de "likes", de engajamentos, o que tem boas consequências no negócio pois indica que os internautas passam mais tempo no Facebook. Por outro lado, as páginas oficiais são, segundo me parece, aquelas que dão lucro à empresa.

A configuração do Facebook, no seu software aponta para uma lógica de "narcisismo" e de consumo imediato, na linha da cadeia alimentar "MacDonald". O Feed tende a fechar-nos em torno dos nossos espelhos, dos que estão de acordo com a nossa imagem e forma de vida. Por outro lado, não há possibilidade, ao contrário dos antigos blogs, de criar uma indexação das nossas notas e dos nossos "posts". A própria aplicação Notas aparece em lugar secundário e pouco atraente levando-nos a optar antes pelo fluxo de notícias, por uma espécie de perda de memória em fluxo centrado nas fotos dos amigos e nas notícias que dão "moca", que fogem ao normal.

Três dicas para resistir a esta uniformização:
1 - tentar diversificar os nossos contactos. Retirar sem expulsar, usando os recursos do Facebook do nosso "feed" os re-produrores do lixo das imagens "engraçadas", que dão uma "moca" instantânea tal como um hambúrguer do MacDonald mas que a longo prazo vão envenenar o nosso corpo e, no caso do Facebook, a nossa mente.
2 - retirar os fanáticos religiosos e políticos. Os que passam o tempo a reenviar as habituais críticas ao governo ou aos ministros. Optar por ler ou seguir os posts de comentadores que nos abrem horizontes. Ler em vez de "ver" sem "olhar".
3 - valorizar a nossas notas criando um blog paralelo onde se podem colocar os nossos pensamentos, a nossa forma de "informar", feita de caos e ordem.

(ver este meu texto sobre a teoria alternativa da informação de Gilbert Simondon que se pode aplicar ao caso do Facebook: http://socialsoftware-portugal.blogspot.com.es/2013/08/uma-ecosofia-da-informacao-inspirada-em.html)

27/08/13

"Tu constróis a tua própria realidade", um novo tipo de narcisismo?

“You Create Your Own Reality” (short: YCYOR). The trap in spiritual work is to think exactly that and oversimplify ideas to comfort us, leading to spiritual bypassing, not realizing that there are many realities and dimensions/densities interacting and influencing each other and there is a "spiritual war" going on in this day and age, much of it it outside our realm of perception". 


Michael Topper in http://cassiopaea.org/2010/09/15/why-you-dont-create-your-own-reality-an-antidote-to-fatuous-new-age-paradigms/ (retirado de um post encontrado no Facebook)


Qual é o problema das novas espiritualidades, divulgadas no Facebook, quando, sobre o lema "tu constróis a tua própria realidade", caem num novo tipo de narcisismo?
 
Não existe o eu e o tu fora da nossa espécie, fora da nossa mãe-terra ou biosfera. Somos todos o mesmo coração, como diziam os antigos "Mayas" da América Latina. "Eu sou tu". Essa solidariedade é a base da mudança perceptiva. Somos todos um e essa unidade inclui humanos (crianças, mulheres e homens), animais e outros seres. Essa unidade ontológica leva-nos naturalmente a uma outra percepção do mundo desde que não haja ressentimento e ódio no nosso coração.


Muitas vezes, na sociedade ocidental, estamos separados dessa unidade pela educação, principalmente pelas mães que tivemos. Mães que sofreram por não poderem ser femininas, como diz o psicólogo Arno Gruen. Pela dominação do principio activo masculino de conquista e de domínio do outro e da natureza. Esse vírus transmite-se pela educação inicial até cerca dos 3/4 anos de idade. O essencial do que somos está feito, estamos moldados. Depois, muito dificilmente se consegue mudar. Apenas por uma conversão que deve ser diariamente activada e renovada. Pelo coração.


Ver também o texto: http://socialsoftware-portugal.blogspot.com.es/2013/08/para-uma-ecosofia-da-mente-have-it-your.html

30/06/13

Uma "nova" forma de indignação que sucede no Brasil de 2013?

Nota: a foto de uma manifestação de jovens indignados em São Paulo anterior ao movimento de 2013. Era uma minoria de indignados, cerca de 200, em 2011.




Há uma certa confusão em alguns investigadores sociais quando falam das novas formas de contestação no Brasil de Junho de 2013.

Para muitos destes autores, inspirados em grande parte numa versão do marxismo, o que se passa no Brasil é iniciativa de classes médias insatisfeitas e Lumpen-Proletariado. Alguns usam, de algum modo, explicações vagamente conspiratórias


Outros, como Elisio Estanque, falam de revolta da nova classe média. Sentem que algo falha na análise marxista tradicional. "Há uma retórica marxista dogmática que quer à força ver nos atuais protestos aquilo que não são: uma vanguarda virada para a revolução proletária. Outros, tomam a nuvem por Juno e concluem que é tudo fabricação da direita e dos média." 

Citando: "esta é uma nova classe média: não a das classes A-B instaladas, não a dos interesses individualistas, mas um novo segmento que, ao ser embuido dos sentimentos de partilha e de luta coletiva (como em outros momentos da história) que os atuais movimentos proporcionam, ao viver esta experiencia de luta, estarão mais tarde em condições de orientar o Brasil para o rumo do desenvolvimento”. (Facebook de Elísio Estanque, 28 de Junho de 2013). 

Uma nova classe média com alguns laivos de radical? Talvez seja possível mas a minha experiência, leituras e algumas conversas ao acaso dizem ou falam de uma outra forma de pensar e agir nesta multiplicidade de redes que se conecta de forma rizomática (conceito de Gilles Deleuze) ligando, de uma forma íntima, o digital e o não digital. 

Pensando o problema de um ponto de vista sociológico radical (que vai à raiz das coisas), diria que a nossa "carpela" sobre o real, usando conceitos como “classe social”, apenas nos dá uma imagem muito difusa desta realidade. Porque não usar então uma outra metáfora, sem negar a especificidade e correcção do que se diz usando a outra metáfora mais pesada (Classe remete para ordem...)? Uma metáfora mais hábil, mais útil como ferramenta teórica? Talvez as palavras "rede", "rizoma" ou “multitude” sejam as mais justas e potentes.

Não retirando razão total a alguns argumentos de uma sociologia do “social” mais presa ao modelo “newtoniano” da procura de regularidades, parece-me que o que sucede apenas pode ser justamente compreendido com a lógica rizomática, uma onda de “multitudes” como defende Antóinio Negri, que as redes sociais híbridas, em parte, incentivam.

©José Pinheiro Neves


11/05/13

Porque é que ainda não saí do Facebook?

Muitos amigos costumam dizer-me que estar no Facebook é uma perda de tempo. Os mais radicais insistem afirmando que estou a ser colonizado pelas grandes corporações que usam os meus dados em função dos seus interesses comerciais. Outros sugerem mesmo que é um lamaçal, um buraco negro virado para o narcisismo, consumo e o sexo mercadoria. Numa palavra, segundo eles, estou a ser apanhado pela feitiçaria do capitalismo. 

Contudo, talvez as coisas nãos sejam assim tão lineares e dicotómicas. Talvez seja possível divulgar a inteligência ecosófica, a ecologia profunda nestas redes digitais. Ou seja usar os instrumentos da escravidão para libertar. 

Partilhar no facebook filmes e textos inteligentes é uma forma de resistir à onda de estupidificação e de narcisismo bacoco que caracterizam, em grande parte, as redes digitais. É um prazer partilhar estes olhares alternativos. Uma sabedoria ecosófica que nos pode levar a um outro olhar no nosso quotidiano. 

Vou dar um pequeno exemplo.




Partilhar o filme "Tudo Vigiado por Máquinas de Adorável Graça" pode funcionar como uma terapia à distância para nos libertar deste apelo-feitiço, esta sedução demoníaca pelas máquinas.Como diz Luiz Carlos Pinto, "este filme parece desde o início uma referência à miríade de máquinas, maquinetas, gadgets, equipamentos, eletro-coisas e i-coisas, computadores, plataformas e sistemas de informação que alçamos à condição de essenciais para lidar com a vida cotidiana. Para sermos mais felizes, compreendidos, lembrados, vistos; para sermos melhores, enfim. O feitiço dessas mercadorias vem radicalizando a sublimação do homem pela coisa, ou pelo motor. Você vale por quanto pesa o seu motor de mão".

Coisas que me vieram à mente. "Uma pessoa vale não pelo que é mas pela potência do seu computador, telemóvel, automóvel, pelo dinheiro-feitiço que possui no banco, etc. Somos avaliados pela quantidade de ausência, de nada que possuímos. A feitiçaria da mercadoria é mesmo poderosa, bolas!" 
Ver filmes como este pode então criar uma sensação de insatisfação que nos leva a fazer coisas diferentes. A cura  começa por usar menos o nosso automóvel, usar menos o telemóvel e o facebook para conversar mais com os amigos à volta de uma lareira ou de uma comida saborosa por exemplo. Outro exemplo: em vez de perder centenas de horas no Facebook nos jogos sugadores de tempo tipo Farmville, criar uma mini-horta urbana na varanda do nosso apartamento, etc. Micro acções para sair desta feitiçaria da ausência, a feitiçaria do capitalismo. Estarmos mais aqui e agora  em conexão com o mundo mineral, as plantas, animais e seres humanos. 

Sites referidos no texto: 


24/01/13

Diário de um Facebookeano (1) - Ser ou não ser, no facebook, eis a questão.




24 de Janeiro de 2013

Hoje li um testemunho frontal no Facebook. "Ando cansada e desiludida com o Facebook. Revela-se um nicho pouco sério, onde impera a coscuvilhice e a intriguice, repetindo a pequenez da aldeia, onde tudo está à janela para dizer mal do parceiro e julgá-lo. Devia ser um espaço de opinião livre, de discussão franca e aberta, de amizade, de transmissão e partilha de conteúdos interessantes e de cultura (já que as instituições culturais deste país estão a morrer e precisamos de substitutos) e não de denúncia pidesca, sempre que alguém diz a verdade." Maria João Cantinho (24 de Janeiro de 2013).

Relembro muitos testemunhos semelhantes, ao longo dos últimos anos, escritos por pessoas que tomam consciência dos perigos da comunicação nas redes nomeadamente das formas de manipulação e até de agressão verbal, que se podem transformar, quando sistemáticas, em formas modernas de Bullying.

Valerá a pena, tendo em conta estes fenómenos, estar em redes como o Facebook?
 
Penso que, tal como a galáxia Gutenberg, as redes sociais são sobretudo a expressão, alargada, de formas de escrita, formas de vida e de individuação.
 
Será que, devido aos maus escritores e livros péssimos, aos leitores superficiais, eu deveria deixar de entrar nessa rede (uma internet antiga) que são os livros impressos? Ficar reduzido à minha família, ao meu grupo de amigos que encontro no local de trabalho ou no café?

10/07/12

O novo latim das redes sociais é o inglês... Uma "merda"? Ou será uma criação tribal de resistência ao "sistema"?




Perante estas fotos fabulosas, escreve o anglo-saxónico responsável por esta página do facebook: "This always blows my mind" [Isto rebenta com a minha cabeça]. Também é curioso o nome da página: "I fucking love science" [Gosto fodidamente da ciência].  



Este tipo de escrita [mistura o calão operário de Manchester com estilo escocês popular] começa a ser uma espécie de bandeira, de estilo internético que os jovens portugueses tentam desesperadamente imitar arrasando assim, segundo alguns especialistas, a nossa língua.

Mas será que terá mesmo de ser assim? Não haverá aqui um regresso às cavernas, a formas mais pobres de ser humano, uma nova bárbarie. Falando em bom português, do antigo, não será isto uma enorme "merda"? Ou será que o inglês, como língua, já tem esse vírus na sua natureza?

Será tudo isto bom? Será um índicio de que algo está mudar, um sinal positivo de uma nova sociabilidade emergente, mais tribal, aberta e sadia como defende o sociólogo francês Michel Maffesoli? Mais informal e menos rígida? 

Neste texto, apenas me vou debruçar sobre o ingês como língua, procurar na história indícos que me permitam entender o seu êxito actual. É apenas, de certa forma, uma crónica escrita no fluxo do Facebook.

Finalmente (já era tempo!), começo a entender porque os romanos (e os gregos antigos ao falarem dos que naquela altura falavam línguas com a mesma origem) designavam como "bárbaros" estes povos e esta linguagem, o inglês. Infelizmente parece que esta língua anglo-saxónica tende a ser maioritária no planeta. Com um planeta falando assim, honestamente prefiro mil vezes o chinês. E o que me assusta ainda mais é ver hordas de jovens (muitos deles passaram mais de 1 dezena de anos sentados nas escolas dos vários níveis de ensino) que nasceram em ambientes onde se falam línguas tão elaboradas e inteligentes como o português (neto do antigo e clássico Grego), que de forma provinciana renegam e a sua língua-mãe ( dizia o Fernando Pessoa com toda a razão que a sua pátria era a língua portuguesa) e tentam imitar os novos bárbaros. Destinos muito incertos (para não dizer outra coisa mais dolorosa) esperam este planeta!

Esclareço eventuais leitores ou leitoras destas ruminações vagabundas que não sou contra a língua inglesa em si. Nem um nacionalista ferrenho. Pelo contrário: os escritores que me marcaram foram, na era moderna, quase todos anglo-saxónicos. Eles combinam de forma sublime e justa o lado bárbaro do inglês, a sua ligação à natureza (o mesmo se passa, creio no alemão, por exemplo, mas de forma diferente) com o saber, a inteligência que nos ficou da cultura greco-romana. O lado bom que ficou dessa cultura. 

Defendo, isso sim, a ideia de uma pluralidade, como uma polifonia harmónica, como um canto gregoriano em que as diferenças linguísticas sejam entendidas como pontes e não separações. Defendo que a pluralidade deve passar pelo respeito e não pela uniformização da diferença. 

E, num registo mais pragmático e com uma dimensão política, creio que a defesa das línguas locais seja o português ou a língua de uma tribo na Amazónia é também uma questão de ecologia ou de ecosofia. Não são apenas as árvores da selva amazónica que estão sendo destruídas. É também todo um saber (e formas sadias de nos exprimirmos e de viver) que se está a destruir. Tudo isso nos devia fazer corar de vergonha ou de indignação da nossa condição de europeus. 

Os bárbaros de facto somos cada vez mais nós, os conformistas e adoradores dos mitos dos media , que aceitamos passivos a expansão desta forma de falar, trocar, produzir e consumir, os educados pela ignorância da cultura judaico-cristã e da ética protestante do negócio que domina este mundo do deus "mercadoria". 

Um fetiche ( feitiço) realmente poderoso, o capitalismo, bolas!

Excurso

Diz Stephen Thompson: "Os gregos antigos não podem ter designado a lingua Inglesa de barbárie humana, porque, naquela época, o idioma Inglês não existia".

Primeiro o significado da palavra "bárbaro" não é o mesmo do actual. Língua "bárbara" queria apenas dizer que era "estrangeira" ao latim ou ao grego antigo. Não é um adjectivo de desvalorização.

Segundo, você tem razão do ponto de vista formal. Não é totalmente rigoroso dizer o que digo mas de qualquer forma não fujo muito à verdade. Nessa altura, no tempo da grécia antiga clássica de Platão e Aristóteles, não se falava o inglês em Inglaterra. Apenas o celta e possivelmente outras línguas muito anteriores aos celtas. Mas existiam já as formas linguísticas que mais tarde vão estar na origem do inglês mas não em Inglaterra: era a língua dos "bárbaros" germânicos. Como sabe, o inglês surge, mais tarde, já no império romano. O inglês é uma língua colonial usada pelos estrangeiros que, de certa forma, invadem Inglaterra. Paradoxalmente, o inglês não pertence aos indígenas ingleses. Foi uma língua germânica introduzida pelos invasores ou colonos "bárbaros" germânicos e outros. Na antiga Inglaterra, na altura do fim do Império romano, não se falava o inglês mas antes o latim (na parte controlada pelo exército romano) e a língua dos indígenas, o celta, partilhada pelos irlandeses daquela altura e pelos escoceses. E, já agora, também partilhada, entre outros, pelos indígenas ibéricos, já subjugados aos romanos, do noroeste da Península Ibérica que inclui agora a Galiza e o Norte de Portugal. "O inglês é uma língua germânica ocidental que se originou a partir dos dialetos anglo-frísio e saxão antigo trazidos para a Grã-Bretanha por colonos germânicos de várias partes do que é hoje o noroeste da Alemanha, Dinamarca e Países Baixos [Curiosamente os que são considerados actualmente como a parte culta da Europa]. Até essa época, a população nativa da Bretanha Romana falava língua celta britânica junto com a influência acroletal do latim, desde a ocupação romana de 400 anos." Fonte: Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_inglesa

Já agora podemos verificar que contrariamente aos germânicos e aos greco-romanos, e à tradição judaico-cristã, que marca infelizmente a cultura inglesa e os valores ocidentais do capitalismo actual, os celtas tinham uma visão diferente que se aproxima paradoxalmente da cultura dos povos do sul do México e Guatemala de influência "maya".

Os celtas "exaltavam as forças telúricas expressas nos ritos propiciatórios. A natureza era a expressão máxima da Deusa Mãe. A divindade máxima era feminina, a Deusa Mãe, cuja manifestação era a própria natureza e por isso a sociedade celta embora não fosse matriarcal mesmo assim a mulher era soberana no domínio das forças da natureza. A religião celta era politeísta com características animistas, sendo os ritos quase sempre realizados ao ar livre". Uma das cidades marcadas pela cultura celta é curiosamente o Porto (Oporto em inglês), situada no Norte de Portugal, cidade onde eu nasci.



José Pinheiro Neves