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04/08/13

Novas espiritualidades no Facebook: a relação alma, espírito e corpo

In Facebook, página "Tiempos de Paz", 27 de Julho de 2012
Surgem-me muitas vezes no Facebook posts alternativos acerca da alimentação e da medicina baseados em conceitos das novas espiritualidades.
Num deles, apresenta-se uma visão holística da relação das emoções com os orgãos do corpo (ver foto).
De acordo com estes perfis do Facebook, o corpo e os seus "orgãos" e aparelhos" não estão separados do "sentir" subjectivo, da alma e do espírito. Nesta visão, o corpo não é um intrumento funcional e racional da mente ou do espírito, como defende a maioria esmagadora da medicina convencional alopática e o seu aliado principal, as grandes corporações multinacionais da indústria farmacêutica. 



 Nesse sentido, somos apenas energia, mais activa ou mais passiva, em termos orientais, Yang e Yin. Somos apenas alma e espírito e não alma ou espírito, por lado, e corpo, por outro. Os chamados aparelhos digestivo, circulatório, etc não são escravos funcionais como uma fábrica mas antes seres de energia conectados em rede, seres sensiveis às asneiras cometidas pelo ser mental. Estando esse centro em desarmonia com os fluxos da natureza, em "pecado", os outros seres de energia, os chamados orgãos, começam naturalmente a ficar doentes, a tenderem para a falta de moderação, a cairem num dos polos: ou demasiada alma ou demasiado espírito.
Ver post relacionado com este tema:
"As novas espiritualidades no Facebook: verdade ou mistificação?"



"Novas espiritualidades": uma ciência ecosófica nas redes sociais?

1. No Facebook, pululam como cogumelos, páginas e perfis acerca das novas espiritualidades, terapias alternativas, meditação, budismo, etc.  A tese é aparentemente simples: a nossa sociedade é cada vez mais atraída pelo corpo, pelo material. Ora, segundo eles, essa vida não é a melhor. Falta a vida espiritual, um mundo superior. Para eles, a vida sã é sempre baseada no espiritual e não numa pretensa saúde física, do corpo. O corpo é o espelho da nossa consciência, da forma como gerimos a relação entre a forma, o "ânimo", e a projecção para fora, a "energia espiritual". No limite (e aí têm o apoio da moderna física das partículas), não há corpo físico, não há matéria pura. Tudo, mesmo tudo, é energia.

2. Por outro lado, aumentam os sites onde se fala cada vez mais de corpos e de sexo, um materialismo ligado à recusa da conversa dita irrealista e não científica acerca de alma e espírito. Dizem: as novas espiritualidade são coisas da religião, do foro íntimo de cada um. Não é ciência, é crença!

Estarão certos? Serão, a alma e o espírito, um lixo místico herdado da idade média, algo do foro pessoal ou religioso?
 
3. Para responder a estas perguntas, sugiro uma viagem à origem destas noções.
 
A palavra alma vem do latim "animu", que significa "o que anima", o ânimo. A palavra espírito, por outro lado,  em latim "spiritus" significava respiração ou sopro. A palavra corpo tem origem no latim "corpus", a figura humana, especialmente o tronco.
 
De algum modo, a primeira palavra "alma" remete para o interior. Um corpo movendo-se. A segunda, espírito, é mais do foro exterior, mais perto da saída. O ar entrando e saindo. O sopro.

O corpo seria o meramente estático, a foto, a figura nomeadamente da parte mais volumosa. O tronco.

4. O dualismo actual entre alma/espírito e corpo, defendida pela tecno-ciência moderna, pela medicina convencional e pelos media, tem pouco de científico apesar da sua simplicidade e aparente clareza.

A diferença capital, subinhada pelos pré-socráticos e pelos gregos antigos (ver G. Agamben) era entre ALMA/ESPÍRITO. Foi olvidada em favor da distinção ESPÌRITO(e alma)/CORPO sendo este último considerado a REALIDADE fundamental. O resto não podia ser provado sendo remetido para o reino da crença e da superstição.
A distinção entre a alma/espírito versus corpo somente ocorreu com a atual terminologia judaico-cristã. A visão judaico-cristã sobre almas e espíritos versus corpos herda uma mistificação escrita por um romano, Paulo de Tarso, recentemente convertido a uma seita judaica designada séculos mais tarde por "cristãos". Dois mil anos depois, ainda é aceite, no ocidente, como indiscutível.
Esta distinção falsa teve efeitos históricos terríveis. Com Francis Bacon (ver a forma como adopta de forma adulterada Aristóteles como modelo da ciência), no século XVII, passou a ser a base da ciência moderna, do método dito científico.

 
5. Para muitos cientistas e filósofos, o problema colocado dessa forma dicotómica, adoptado pela parte conservadora da igreja católica como instituição e pela tecnociência, está mal colocado. Em vez disso, e é esse o ponto central das novas espiritualidades, a distinção maior deveria ser entre o espírito e a alma. De algum modo, todo o corpo é espírito. A distinção importante deveria ser entre a energia interior na sua relação para dentro (anima) ou para fora (espírito). Ou seja, entre a alma e o espírito.
As religiões orientais como o budismo já defendiam esta tese há milhares de anos atrás. Ela começou pouco a pouco a ser divulgada pelos cientistas considerados de forma injusta, por muitos colegas, como não científicos, esotéricos, etc. Alguns dos cientistas utilizadores de termos espirituais foram mesmos lançados, eu diria banidos, para o reino do "misticismo" não sendo aceites como sérios: a psicologia de Carl Jung, sociólogos como Michel Maffesoli (o conceito de Imaginário como espírito do tempo), o físico F. Capra e a noção de "teia vital holística",  os biólogos Varela e Maturana com a noção de "sistemas auto-poiéticos e auto-referentes", etc.
Contudo, recentemente estes cientistas espirituais têm tido uma divulgação cada vez mais exponencial na internet e nas redes sociais estando na base de um novo discurso científico, de uma nova ciência espiritual e holística. Ver, como exemplo, os diálogos entre Dalai Lama (o "papa" do budismo) e vários cientistas prémios nobel sobre as afinidades entre o Budismo e a emergente neurociência e a ciência da consciência.
 
 
6. Sendo assim, o conteúdo de muitos perfis e páginas do Facebook ligados às novas espiritualidades, mais conhecidos por New Age, deve ser visto justamente por outro prisma. Como autênticos cientistas ecosóficos denunciadores da mistificação da tecno-ciência moderna. Como novos sábios expulsos, em muitos casos de forma subtil, das universidades e das instituições de investigação. Repetem-se os novos processos de caça às bruxas e bruxos. A nova barbárie.

 
Ver etimologias, na Wikipedia, de "Alma", "Espírito" e "Corpo".