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16/01/13

Bruno Latour. Uma ecosofia do abismo.




Vou contar-vos uma pequena história para compreenderem a razão que me levou a apaixonar-me de forma irremediável pelo pensamento do antropólogo Bruno Latour. E a considerá-lo como um dos meus gurus em Sociologia, um dos pioneiros do pensamento ecosófico.


Conheci pessoalmente Bruno Latour em 2001 numa Escola de Verão organizada pela Universidade do País Basco. O que me surpreendeu logo nele foi a sua forma de andar. Alto, um pouco curvado, parecia que mirava as pessoas de um outro patamar com alguma compaixão. E a sua forma de andar, passos largos, assemelhava-se à de um camponês. Tinha, ao mesmo tempo, uma forma de estar dentro da sua roupa que parecia dizer: "Eu não pertenço a este mundo académico. Estou aqui talvez por acaso ou com numa missão. Mudar as vossas percepções!". 


Esta intuição foi confirmada pelo que narrarei em seguida. Durante a sua palestra, aconteceu algo que considerei mágico. Que me levou a sentir que estava não perante um académico vulgar estilo racional e muito direitinho, mas antes perante um autentico mestre no sentido mais amplo do termo. Aquilo que os hindus designam por Guru mas sem a conotação negativa que lhe é associada pelos ocidentais. E o que aconteceu que me levou a dedicar-me com entusiasmo, aparentemente talvez excessivo, à divulgação da sua obra? Na sua palestra, num certo momento, Latour deu um murro com muita energia na mesa. Confesso que até aquele momento, estava um pouco distraído sendo apanhado de surpresa. O que o levou a essa atitude aparentemente violenta?


Estava argumentando em torno da sua nova noção de "Coisa-pública" sugerindo um parlamento em que os não-humanos estariam representados. Usava um argumento ecosófico ou de um ecologista profundo: não fazia sentido que sendo a republica o governo da coisa publica, os não humanos não tivessem direito a exprimir-se sendo eles o essencial da "COISA" pública (Res-pública)? Depois alguém na assembleia o contestou, se bem me recordo, com argumentos do tipo: "A sua visão é irrealista, filosofia sem interesse, porque toda a gente sabe que não é lógico introduzir os animais, por exemplo, como membros do Parlamento. E muito menos as plantas ou outros não-humanos. Os seres humanos são os que a isso tem direito porque são racionais".

Latour, na sua resposta usando o gesto físico do "murro na mesa", não apelou inicialmente ao nosso pensamento racional mas antes a algo de tipo ontológico. Com o seu murro na mesa, apelava de algum modo ao plano da consistência referido por Gilles Deleuze e Félix Guattari (1992), ao nosso próprio eu profundo (Self) referido por Carl Gustav Jung, a pré-individualidade de Gilbert Simondon, a nossa percepção pessoal sem recorrer a mediações externas que o legitimariam perante nós.

Latour seguia justamente o conselho de Michel Foucault (1997) na sua "Ordem do Discurso": sair das armadilhas do discurso do poder, do discurso que é mais poder do que saber. Procurar a realidade mesma das coisas, por uma intuição ontológica no seu sentido bergsoniano, um desnudamento essencial. Uma ciência alegre, uma ciência da vida que, como justamente dizia Nietzsche, deve ser Ciência, vontade autêntica de saber sem ser conspurcada pelo método dito cientifico criado no século XIX, uma ciência que deve ser capaz de viver na Vertigem, um termo usado também por Albertino Gonçalves (2009) numa obra recente, na consciência do abismo, uma ciência abismal. Na voz de  Hafez (1996: 244), contra o "'alarido e tagarelice de agitadores' que defendem uma ideia de ciência pura e objectiva se ergue Nietzsche, afirmando que “esses corneteiros da efetividade" são maus músicos. Em suas vozes não se pode ouvir, finalmente, a profundeza da consciência científica — “pois hoje a consciência científica é um abismo” (F. Nietzsche, Para a Genealogia da Moral , III, §23.).

Retomando a nossa história, a intensidade do gesto de Latour, dizendo que a mesa onde estava sentado também fazia parte da coisa pública, criou um silêncio quase de morte. 

Uma sensação de abismo atravessou os presentes que rapidamente se desvaneceu quando Latour mostrou o seu sorriso de menino travesso.



Livros de alguns dos autores citados


Deleuze, Gilles e Guattari, Félix, O que é a Filosofia?, Lisboa, Editorial Presença, 1992.
Foucault, Michel, A Ordem do Discurso. Lisboa, Relógio de Água, 1997.

Gonçalves, Albertino, Para uma Sociologia da Perversidade, Coimbra, Grácio Editor, 2009.

Hafez, Rogério, "Nietzsche.Um “crítico”da ciência ?" in Revista USP, São Paulo, n. 28, Dez. 1995/Fev. 1996, p. 232-244.




Um texto fundamental de Bruno Latour em português:

Latour, Bruno, "Como prosseguir a tarefa de delinear associações?" (Tradução portuguesa do prefácio da edição inglesa de Bruno Latour, Reassembling the social. Introduction to the Actor-Network Theory), Revista Configurações, n. 2. Tradução de J. Pinheiro Neves e Luís de Barreiros Tavares.

14/08/10

UnderstandingSociety: Gabriel Tarde's rediscovery

Gabriel Tarde could help us to understand the new links on society of information. Read this text.

"Gabriel Tarde was an important rival to Emile Durkheim on the scene of French sociology in the 1880s and 1890s. Durkheim essentially won the field, however, and Tarde's reputation diminished for a century. Durkheim's social holism and a search for social laws prevailed, and the sociology of individuals and the methodology of contingency that Tarde had constructed had little influence on the next several generations of sociologists in France. In the 1990s, however, several important strands of thought were receptive to a rediscovery of Tarde's thinking; Gilles Deleuze and Bruno Latour each found elements in Tarde's thinking that provided intellectual antecedent and support for ideas of their own. In the past fifteen years or so there has been a significant revival of interest in Tarde."

UnderstandingSociety: Gabriel Tarde's rediscovery

09/03/10

"Critérios de reputação em coletivos digitais: estudo de caso na disciplina criando comunidades virtuais de aprendizagem e de prática"

Ver esta tese de mestrado brasileira sobre as relações sociais numa comunidade virtual em que se utiliza um método etnográfico baseado na antropologia simétrica de Bruno Latour.

"Título original

Critérios de reputação em coletivos digitais: estudo de caso na disciplina criando comunidades virtuais de aprendizagem e de prática
Autor

Freire, Claudia Pontes

Resumo

"Relações de poder na sociedade em rede, emergência, nomadismo e coletivos digitais.

Estudo inserido na Área de Concentração Interfaces Sociais da Comunicação, na Linha de Pesquisa Educomunicação do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da Universidade de São Paulo. A pesquisa trata dos critérios de reputação em trabalho coletivo mediado denominado texto coletivo desenvolvido por alunos do Programa de Pós- Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, constituindo-se em um estudo de caso na disciplina Criando Comunidades Virtuais de Aprendizagem e Prática, em vigor desde o ano de 2001. Estudo longitudinal, exploratório, o método é etnográfico utilizando técnicas de coleta de dados quantitativas (questionário fechado) e qualitativas observação participante e coleta de depoimentos. Os resultados apontam para os seguintes critérios de reputação: a) o envolvimento dos participantes na atividade de produção coletivo; b) a influência do conhecimento de cultura digital e ferramentas da web (literacia digital); c) perfil do aluno e característica pessoais que despertam a confiança e o compartilhamento de conhecimento por parte dos outros colegas."

Metodologia utilizada:



Ver aqui a tese completa:

31/01/10

A passagem dos dispositivos tradicionales de CMO para o Software Social

Um texto que reflecte sobre o conceito de software social.

"Se trata de describir y comparar el funcionamiento de un determinado software de comunicación mediada por ordenador que se encuentra en Internet y que, des de hace unos pocos años, ha generado una pequeña polémica sobre su denominación entre ingenieros programadores y académicos.

En efecto, algunos usan el termino de ‘software social’ para designar únicamente una determinada categoría de dispositivos y servicios de Internet con diferentes funciones como la publicación y distribución de imágenes (Flickr), vídeos (YouTube), enlaces favoritos (Del.icio.us, Meneame, Digg), o artículos escritos (blogs, Barrapunto); todos ellos desarrollados a partir del año 2000.

El objetivo de esta nueva denominación es establecer una distinción con los dispositivos de comunicación mediada por ordenador de Internet --chat, listas de correo, foros electrónicos, MUD, los grupos de noticias, etc.-- , que a partir de ahora, para abreviar llamaremos dispositivos tradicionales de CMO" (p. 79).

Este desacuerdo nos llamó la atención porque intuimos que no se trataba de una simple discusión sobre mejoras de dispositivos o de nuevos proyectos de servicios en Internet. Algo se estaba transformando. Y las transformaciones tenían que ver con lo que llamaremos sus respectivas teorías de lo social o, también, socio-lógicas".

[...]

"Como decíamos en la introducción, nuestro objetivo es terminar esta breve descripción sobre el funcionamiento de estos dos tipos de dispositivos de comunicación mediada por ordenador y de este pequeño análisis de los discursos que los ingenieros-sociólogos, con la presentación de un resumen de los aspectos que mas sobresalen de sus teorías de lo social. Para facilitar la exposición, hemos elaborado el siguiente cuadro que pasamos a comentar:










‘Comunidad virtual’ es, sin ninguna duda, el concepto más popular para referirse a los grupos que surgen como consecuencia del uso de los dispositivos de la CMO tradicional. Con el recurso a este término, se condensa una teoría de lo social: se circunscriben los limites de la asociación (espacio social = hasta donde llegue lo ‘social’), se asignan unos intereses para devenir miembro (cualquier humano), se ordena de determinada manera de relacionarse y de establecer vínculos intersubjetivos (netetiqueta), etc. Pero, también, en esta manera de promover y dar cuenta de este tipo de asociaciones, se siguen ocultando algunos debates importantes: son ejemplos de ello, el silencio sobre la creciente expertizacion de los usuarios o la separación radical entre la realidad on y realidad off de modo que su relación se convierte en un problema. Y, lo que parece menos comprensible tratándose de Internet, es que todo continua “Como ocurría con el sexo en la era victoriana, los objetos están por todas partes pero no hablamos nunca de ellos” (Latour, 2006:105).


in Vayreda, A., & Estalella, A. (2007). 'Software social: ¿teoría social?' In F. Tirado & M. Domènech (Eds.), Lo Social y lo virtual. Nuevas formas de control y transformación social, Barcelona: Editorial UOC, 78-92.

04/11/08

Como estudar sociologicamente o social-software? Um exemplo de projecto de investigação.

Para se entender a forma como se estuda sociologicamente o social-software, apresento aqui um exemplo interessante de um antropólogo espanhol, Adolfo Estatella.


"Y el contenido… ya sé que es un poco abstruso, y que alguno pensaréis que los blogs no tienen tanta miga como para que yo le dedique dos o tres años de estudio. Pero estudiar los blogs hata ese extremo… no es sólo por el blog, sino por todo lo que imoplica el blog, esos fenómenos a los que apuntan los blogs y los bloggers con su práctica y que sutilmente pasan desapercibidos. Los límites cada vez más difusos de lo privado y lo público, un nuevo posicionamiento de los blloggers frente a los medios, una nueva forma de lectura (y relectura) de los medios…
Y os aseguro que no es más sencillo analizar un blog que la muerte de una estrella convertida en supernova. Y yo, he estudiado un poco de los dos (sólo un poco).
También, no es muy ortodoxo esto de contar a quien investigas qué es lo que investigas. Los etnógrafos siempre se guardan una parte para sí. Pero esto no es una etnografía al uso, y los bloggers sois muy peculiares (¿somos?). Así que sin miramientos suelto mi rollo, que son sólo unas notas de trabajo para la presentación.
Entre blogs. Una etnografía simétrica a través de Internet

PREGUNTAS DE INVESTIGACIÓN¿
Qué nos mantiene unidos cuando nos relacionamos con otras personas a través de la pantalla?
¿Cómo construimos nuestros vínculos a través de artefactos de Internet como el correo electrónico, el chat, los blogs, etc?
¿Qué propiedades tienen esos vínculos? y ¿qué sociabilidad se construye a través de ellos?
Estas son las preguntas que sirven para situar la cuestión de mi investigación. El artefacto objeto de mi investigación: los blogs.

BLOGS, ARTEFACTOS EN INTERNET
Desarrollados desde 1999, los blog tienen formalmente un aspecto similar al de una página web personal creada mediante un software especializado. Normalmente un blog es escrito por un autor, y ocasionalmente por un número reducido. Visualmente muestran una serie de artículos, publicados periódicamente con ordenación cronológica. Los lectores pueden incluir comentarios a los artículos y estos suelen contener un número elevado de hiperenlaces.

ETNOGRAFÍA EN INTERNET
El objeto de mi investigación es analizar cómo construimos nuestros vínculos a través del blog y cómo este artefacto organiza nuestras prácticas cuando nos encontramos frente a la pantalla e incluso más allá.
Desarrollaré mi trabajo como una etnografía, la metodología que han usado los antropólogos desde hace casi un siglo para estudiar la cultura de los otros (ya sean argonautas del Pacífico o tribus urbanas). El objetivo de toda etnografía es comprender la cultura del otro y hacerlo a través de una descripción densa que nos permita comprender el sentido profundo de los significados de esas comunidades (sus ritos, su organización, etc.).

BLOGS, MÁS QUE COMUNICACIÓN
Mi etnografía pretende comprender cómo el blog es un artefacto para la acción, porque el blog, y esto es una hipótesis de partida, no es sólo un instrumento de comunicación. Permite a su autor construir su presencia en Internet, ser partícipe en la construcción de Internet, utilizarlo como un instrumento de pensamiento, etc.
Esto significa que una investigación sobre blogs no puede reducirse al análisis del intercambio textual que se produce a través de la pantalla, sino que debe analizar lo que sucede más allá de los blog gracias a su mediación, lo que sucede ‘entre los blogs’.

LO SOCIAL Y LO TÉCNICO
El planteamiento de mi investigación asume un giro en la forma de pensar nuestra relación con la tecnología.
El enfoque habitual de los estudios sobre las comunicaciones en Internet asume que la tecnología es un escenario en el que nos comunicamos y ‘dentro’ del cual construimos nuestras relaciones. Cuando se analizan las comunicaciones en un chat o en los blogs, se distingue entre el mensaje (de texto) y el canal (la tecnología). Esto lleva a considerar que lo social se construye a través del texto mientras que lo tecnológico es sólo un escenario (que normalmente desaparece en el análisis).
La propuesta teórica desde la cual acometo mi investigación, la Teoría del Actor Red, sostiene que no podemos mantener esa distinción.
¿Qué significa esto? Significa que mi etnografía no se limita sólo al texto de los blog sino también a su software. Significa que el trabajo de campo que realice analizará a los autores de blogs tanto a través de sus interacciones en Internet como en encuentros cara a cara; analizaré tanto a quienes escriben el blog como al software que sirve de arquitectura para el blog (¿quién es más responsable de un blog, el autor que lo escribe o el software que permite que sea escrito?), analizaré tanto a los usuarios finales de los blog a los desarrolladores del software.

ALGUNAS DIFICULTADES
(i) La construcción del campo. Una etnografía en Internet que no está localizada en una sala de chat, un grupo de noticias o un blog, etc. plantea ciertas dificultades: ¿qué blogs concretos se estudian? La respuesta es que el campo de estudio es construido en la misma investigación.
(ii) La Teoría del Actor Red (TAR). El uso de la TAR pone de manifiesto las limitaciones de muchos conceptos usados en el análisis de las interacciones de Internet como por ejemplo la idea de ‘entorno’, el concepto de ‘interacción online’, etc, prescindir de ellos significa proporcionar una alternativa que tendré que desarrollar".
Adolfo Estatella