28/05/14

A arte de ruminar no Facebook



"Verdade seja que, para elevar assim a leitura à dignidade de 'arte' é mister, antes de mais nada, possuir uma faculdade hoje muito esquecida (por isso há de passar muito tempo antes dos meus escritos serem “legíveis”), uma faculdade que exige qualidades bovinas, e não as de um homem fim-de-século. 

Falo da faculdade de ruminar".

Nietzsche, em Genealogia da Moral

Sils-Marie, julho de 1887.


1. De onde me surgiu esta palavra tão pouco cultural, a arte de ruminar? 



Tirei essa ideia de um trecho do prefácio que o filósofo Friedrich Nietzsche escreveu para a sua obra, Genealogia da Moral. 

2. E como se rumina no Facebook?

Tal como se deve ler um livro de forma lenta, mastigando e ruminando, também assim se deveria estar no Facebook.




Comecemos pelo princípio, diria, de forma redundante. No excerto de Nietzsche, o mais importante não está numa eventual campanha de divulgação das virtudes da leitura. Embora também possa, numa pequena parte, ter essa conotação. O que reforça a minha ideia de que ele estava a pensar em algo que era mais do que ao modo lento de leitura em si. Não era isso que se referia o filósofo.


É essa faculdade que eu, homem de início do século XXI, tento recuperar.

24/05/14

"O capitalismo, divino filho do cristianismo" de Philippe Simonnot


"O capitalismo, divino filho do cristianismo"

Philippe Simonnot



Resumo

Das três grandes religiões da Bíblia, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, qual é a mais próxima do capitalismo? Dos séculos de anti-semitismo aprendemos, nas gerações anteriores, que era o judaísmo. Um renomado sociólogo alemão, Werner Sombart, chegou inclusive a escrever um livro inteiro sobre este assunto. O profeta do Islão, entretanto, foi, em primeiro lugar, um mercador, e as caravanas que ele enviou em missão não tinham lições a receber de ninguém em matéria económica. O cristianismo, por sua vez, parecia, durante muito tempo, mais distante da esfera mercantil com estas famosas palavras de Cristo: "É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus". Certamente, Max Weber, em seu famosíssimo ensaio, mostrou que um ramo do cristianismo, depois da Reforma, não era inteiramente estranho aos assuntos do dinheiro, mas, por seu sucesso, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo foi incapaz de ver as relações profundas e antigas, bem anteriores a Lutero, que se formaram entre o cristianismo e o capitalismo. De alguma maneira, Weber lavou o dinheiro de outros ramos do cristianismo e esqueceu que a Igreja, durante séculos, foi a maior potência capitalista do mundo. De modo especial, ao contrário do sociólogo alemão, podemos argumentar que sem o cristianismo tout court, não haveria capitalismo. É este lado obscuro, ou negado, da religião cristã, que gostaríamos aqui de destacar.

O Código Napoleônico redescobre o Direito Romano

"Comecemos pelo óbvio: não há capitalismo sem capital e não há capital sem propriedade e, portanto, sem direito de propriedade. A Roma Antiga instituiu os três componentes deste direito fundamental: o usus (desfrutar da sua propriedade), o fructus (para ganhar a renda ou os juros), o abusus (poder dar ou vender). Mas este ensinamento perdeu-se com a queda do Império Romano do Ocidente, o que mergulhou a Europa durante vários séculos numa profunda estagnação económica e demográfica. 

De modo geral, data-se no século XVIII a redescoberta de um direito de propriedade à romana. A ideia que se difundiu entre os teóricos da Escola do Direito Natural, na época do Iluminismo, é que a propriedade constitui a implementação de um direito inato do homem sobre as coisas ao seu redor. O resultado mais óbvio e mais evidente desta reinvenção foi o Código Civil Napoleônico, que consagra, de fato, os três componentes do direito de propriedade e permitiu que a burguesia decolasse na França e em todos os países onde este código foi implantado. O Código inspirou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, especialmente no artigo II: “O objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão”.

De fato, a inovação em questão poderia ser a reabilitação dos elementos emprestados da teoria da propriedade desenvolvida pelos teólogos do final da Idade Média. O direito de propriedade do Código Civil, que parece extraído diretamente do direito romano – e sabemos a paixão da Revolução e do Império pela Antiguidade romana –, seria, na verdade, a versão secularizada de uma estrutura, cujo primeiro modelo encontra-se entre os pensadores da Igreja. (Persiga a religião pela porta, e ela retorna pela janela – especialmente quando se trata do dinheiro!

[..]

Uma missão confiada a Deus pelo homem


Até os séculos IV e V, aos olhos dos Padres da Igreja, a apropriação privada é uma usurpação e vem destruir um estado originário que ignorava o seu e o meu. Esta propriedade privada, ensinavam, não separa somente os homens entre si; ela os separa também de Deus, fazendo desaparecer esse estado primigênio, onde nada era de ninguém porque tudo era de Deus. A rigor, como no judaísmo antigo e no islamismo primitivo, poderíamos conceber um direito de propriedade limitado ao usus, e, o que é mais importante, limitado pelas necessidades do Estado ou do bem comum. Mas, certamente, não é esse direito de propriedade, mais absoluto ainda do que aquele do direito romano, que os teólogos cristãos, do século XI ao XIII, vão inventar.

Esses teólogos, para estabelecer um direito de propriedade completo e absoluto, vão remontar não à Lei das Doze Tábuas (450 a.C.), a matriz do direito romano, mas vão retroceder muito mais, até... Adão, o pai de todos nós. A Bíblia nos ensina, com efeito, que o primeiro homem é "senhor do mundo" pela vontade de Deus. O primeiro homem é entronizado por Deus como seu ministro na terra, e, portanto, pode exercer um direito de propriedade sobre o universo inteiro, e não apenas sobre esse pequeno pedaço que constitui a Terra prometida ao povo hebreu. Os historiadores modernos do direito natural encontraram, dessa forma, sem se dar conta, o que era para os teólogos não um direito natural, mas uma espécie de missão confiada por Deus ao homem.

Os primeiros vestígios desse trabalho sobre a Bíblia encontram-se em Hugues de Saint Victor (1096-1141), e Alexandre de Halès (1180-1245). Estes dois eminentes teólogos nos lembram que o homem é superior às outras criaturas e que o poder da dominação que se exerce sobre elas é necessário para a ordem e a beleza do universo querida por Deus, apesar do pecado original.

Assim, o direito de propriedade é de origem divina

Em seguida, vem o dominicano Tomás de Aquino (1225-1274), que aperfeiçoou a doutrina. Para o Doutor Angélico, o domínio do homem, por causa do pecado original, já não tem a sua perfeição primeira: ele vai, doravante, responder exclusivamente às necessidades humanas. Ao mesmo tempo, o homem pode fazer coisas que lhe são úteis.

Um outro passo será dado por um certo Jacques Duèze (1244-1334). Originário de uma família da burguesia abastada de Cahors, ele tornou-se papa em 1316 com o nome de João XXII. Ele é o segundo a reinar em Avignon, que se tornou a residência papal. Este brilhante administrador das finanças pontifícias (7) vai situar-se nas antípodas de uma doutrina muito perigosa para os homens do dinheiro que se desenvolve na época. Trata-se da doutrina dos franciscanos, os discípulos do "pequeno irmão dos pobres", (8) que se afirmam alheios a qualquer forma de propriedade. O domínio sobre as coisas temporais, responde-lhe João XXII, só poderia ter sido dado por quem o pode fazer. Ora, Deus só tem a capacidade de dar uma coisa que lhe pertence. Como não há nenhuma dúvida de que Deus é o dominus, o proprietário do universo, não há dúvida de que o domínio das coisas foi introduzido pela vontade divina. O domínio humano não foi, portanto, introduzido por direito humano, mas, como diz a Escritura, por direito divino. O direito de propriedade é, portanto, de origem divina. Daí seu caráter absoluto – exatamente do que o capitalismo tinha necessidade!











Para dar toda a sua força ao novo direito de propriedade absoluta ainda na sua infância, e especialmente ao fructus, era preciso ainda reverter o tabu da usura que entravava o comércio do dinheiro, tanto entre os judeus como entre os muçulmanos e os cristãos. 




Isso foi feito através da invenção do... Purgatório! 




Até o século XIII, o pós-morte foi dividido em duas partes distintas e opostas: o Paraíso e o Inferno. Esta divisão tinha a desvantagem de não estabelecer uma proporcionalidade entre o pecado e a sentença. À medida que o cristianismo finca suas raízes mais profundamente na sociedade, faz-se necessário um sistema menos rudimentar para governar as almas. Assim, deve aparecer, ao longo do século XII, um novo tipo de pecado, o pecado venial – o que significa digno de perdão –, diferente do pecado mortal. Na sequência, estabelecer-se-á que, se os pecadores, na hora da morte, estiverem carregados apenas com pecados veniais, eles não são condenados à perpetuidade, mas a um tempo limitado de suplício num lugar para purgar as faltas, o Purgatório. Os mortos que foram para este lugar beneficiam, assim, de um suplemento de vida! Acima de tudo, eles estão seguros de que, ao sair das suas provas de purificação, serão salvos. Porque o Purgatório só tem uma porta de saída, aquela que abre para o Paraíso.




A duração da permanência nas chamas purgativas não depende somente do número e da gravidade dos pecados do morto, mas também da afeição dos seus familiares – que se manifesta através de orações e oferendas, uma oportunidade adicional para a Igreja receber doações e legados.




Para que os usurários evitem a condenação do Inferno, bastava fazer da sua culpa um pecado venial. Para isso, a taxa de juros deve ser moderada, ou seja, não pode ultrapassar um determinado limiar considerado como "usurário". Então passamos a encontrar desculpas para a cobrança de juros. Considerou-se que o credor, caso não for reembolsado na data prevista, incorre em danos que podem ser indemnizados com um juro. Ou ainda, de maneira mais subtil, que o credor, separando-se desta parte do seu capital, foi impedido de investir este dinheiro num lugar talvez mais vantajoso. Enfim, considerou-se que o credor incorre no risco de não ser reembolsado, seja por causa da insolvência do devedor, seja por má-fé.




Esta noção chave é estendida da actividade do credor à do negociante por um génio incompreendido da época, o franciscano Pierre de Jean Olivi (1248-1298). Grande adversário de Tomás de Aquino, perseguido pelas autoridades eclesiásticas de seu tempo, ele foi objecto, depois da sua morte, de uma verdadeira devoção popular. Para acabar com ela, os restos do seu corpo foram desenterrados e cremados e seu túmulo foi destruído...




O capitalismo uma vez libertado da religião




Olivi anunciou os novos tempos. Para ele, de facto, o comerciante tem direito a uma recompensa não só pelos riscos que o negócio envolve, mas também porque mostra a sua capacidade de avaliar e controlar os riscos que comporta a prática comercial. O negociante pode, portanto, vender suas mercadorias a um preço mais elevado do que aquele de quem comprou, porque tem uma função útil à colectividade e porque assume riscos. Quanto às operações de crédito, elas escapam da condenação da usura se elas são feitas em função das operações comerciais úteis à colectividade.




O buraco que aqui se abriu, nunca mais se fechará. A primeira aparição conhecida de um contrato de seguro data de 1287, sob a forma de uma escritura notarial, redigida por um notário de Palermo. Depois disso, o seu uso se espalharia favorecendo a exploração dos mecanismos de mercado para a partilha dos riscos.


Por isso, o capitalismo, uma vez libertado das cadeias religiosas pelos próprios religiosos, pôde prosperar, devorar seus próprios progenitores e partir para a conquista do mundo inteiro. Nós vivemos os últimos momentos desse triunfo global."

Doutor em ciências económicas, Philippe Simonnot dedicou parte da sua obra às relações entre economia e religião. Entre elas, temos: Les papes, l’Eglise et l’argent, Histoire économique du christianisme des origines à nos jours (Bayard); Homo sportivus, Capitalisme, sport et religion (Gallimard); Le marché de Dieu, Économie du judaïsme, du christianisme et de l’islam.





in Destaque 2, Edição 98 do Jornal Fraternizar, Maio 2014. 



Publicado em português, com tradução de André Langer, em:


Publicado originalmente em francês no jornal Le Monde, 29 de Abril de 2014, "Le capitalisme, divin enfant du christianisme"









Uma ciência cada vez mais tecnologizada?





"No início, parecia que a ciência era uma actividade intelectual totalmente separada da tecnologia, mas com o tempo essas duas áreas foram se complementando. A intensificação das relações entre ciência e tecnologia através dos tempos tem levado à sua incorporação como tecnociência no mundo contemporâneo." (Wikipedia) 


Mais importante que discutir as diferenças entre Humanidades e ciências exactas, valerá a pena pensar o que é a ciência, hoje. Uma ciência cada vez mais tecnologizada? O problema central está aí mesmo: nessa ligação cada vez mais íntima entre o mundo da ciência e o mundo da tecnologia. Uma grande parte das investigações na área interdisciplinar "Ciência, Tecnologia e sociedade" confirma esta transformação. Podem dizer-me que esta articulação era inevitável e faz parte da lógica do progresso. Esse argumento esquece uma questão essencial: quem determina as áreas prioritárias e financia a investigação científico-tecnológica é um conjunto composto, na sua maioria, pelas grandes corporações e pelo Estado-Nação, um Estado (inclui as Universidades públicas) com cada vez menos poder e autonomia. De algum modo, a perda acentuada da autonomia universitária acompanha a perda de poder e autonomia dos Estados-Nações. É, em grande parte, uma perda de autonomia da ciência em favor da tecnociência seguindo a lógica do mercado global com consequências dramáticas do ponto de vista ecológico. Apesar deste cenário pouco animador para o nosso planeta, existe felizmente um número crescente de cientistas de todas as áreas conscientes deste fenómeno propondo formas de resistência, medidas e soluções concretas. Há cada vez mais diálogo e pontos de afinidade entre filósofos e cientistas sociais inquietos e cientistas das áreas "duras" também inquietos. Preocupados com o rápido e ameaçador crescimento de um monstro designado "tecnociência" (ver as questões éticas da "biotecnologia"). 

Notas

Ver, entre muitos outros, os escritos dos sociólogos Herminio Gomes Martins e José Luís Garcia do ICS - Universidade de Lisboa

Ver o livro de Al Gore (ex-vice presidente dos EUA)"Uma verdade inconveniente". 

Ver também esta afirmação: “Há diversas evidências de que estudos financiados por empresas são mais propensos a conclusões favoráveis aos produtos do financiador. Estão pressionados a publicar e fabricam os resultados, manipulam para parecerem melhores do que são, ou escondem alguns aspectos que não se encaixam com o que querem dizer".

22/05/14

Ainda ressoa o aviso melancólico do Egípcio aos gregos: "Vocês, os gregos, nunca deixarão de ser crianças!"

22 de Maio de 2014

"Ainda ressoa o aviso melancólico do Egípcio aos gregos: "Vocês, Gregos, nunca deixarão de ser crianças!" 

(Gilles Deleuze e Felix Guattari, O anti-édipo, Lisboa, Assírio e Alvim, p. 226)

 "Ah, tudo é símbolo e analogia! O vento que passa, a noite que esfria São outra coisa que a noite e o vento – Sombras de vida e de pensamento. Tudo o que vemos é outra coisa. A maré vasta, a maré ansiosa, É o eco de outra maré que está Onde é real o mundo que há. Tudo o que temos é esquecimento, A noite fria, o passar do vento, São sombras de mãos cujos gestos são A realidade desta ilusão." 

(Fernando Pessoa)  


Qual a razão, o impulso do aviso do Egipto antigo e a melancolia de mãos reais, mãos maternas em Fernando Pessoa? 

Uma resposta poderá ser encontrada numa obra esquecida do filósofo Gilles Deleuze e do psicoterapeuta Felix Guattari: "O anti-édipo". O que separa o Egipto Antigo da Grécia Clássica? Guattari e Deleuze não parecem ter dúvidas: a emergência da potente abstracção chamada "Estado". Seja qual for a sua máscara, terá no seu âmago o fundo despótico da violência masculina. O que mudou foi a sua cada vez maior obscenidade que muitas vezes tem algo de infantil. E a cada vez maior e quase indefectavel máscara. 0 seu momento fundador, descrito na Bíblia, é Ur. "Ur, ponto de partida de Abraão ou da nova aliança. O Estado não se formou progressivamente mas surgiu já todo armado, num golpe de mestre, 'Urstaat' original, modelo eterno de tudo o que o Estado quer ser e deseja." (G. Deleuze e F. Guattari, O anti-édipo, Lisboa, Assírio e Alvim, p. 225) 

"Tudo o que temos é esquecimento." (Fernando Pessoa) 

No momento em que o Estado perde alguma da sua áurea, da sua magia, talvez agora muitos de nós nos voltemos para nós, para dentro. Nós, os descendentes dos gregos, romanos, dos negros e, finalmente e acima de tudo, dos egípcios. Nós, essa mistura que caracteriza o  imaginário português. Apesar de toda esta mescla, dizem os cientistas da biologia, a partir do sangue das mulheres, que há uma maior predominância do sangue negro misturado com o egípcio (judeu) e o ibero-celta. Como defendem alguns historiadores, haveria ainda restos do estigma da cristianização forçada, os novos cristãos.

Nós, repito, com a nossa ainda negritude do Egipto, podemos ser, sem muitas vezes o saber, um ponto minúsculo de resistência, a capital "afectiva" da península Europa como dizia algures um conhecido filósofo italiano. A nova capital egípcia do fim do mundo ocidental, Finis Terrae




Finis Terrae - Antiguo concepto geográfico de que el planeta era plano y que navegar hacia el occidente acarrearía llegar al fin de la Tierra, cayendo al vacío infinito, teoría objetada y erradicada por Cristóbal Colón en 1492.

21/05/14